Os
prejuízos causados pelas mudanças climáticas globais à economia do Estado de
Minas Gerais poderão chegar a R$ 450 bilhões até o ano de 2050. Os efeitos
serão mais acentuados nas áreas mais pobres do estado, ampliando as
desigualdades regionais.
As
conclusões são de um estudo feito na Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas
(Fipe), em São Paulo, e na Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam), de Minas Gerais.
Para realizar a análise integrada dos impactos econômicos dos fenômenos
climáticos, os pesquisadores criaram uma nova metodologia que articula as
projeções de alterações climáticas a modelos socioeconômicos.
A
pesquisa foi parte do Estudo Econômico das Mudanças Climáticas do Brasil
(EMCB), um consórcio que envolve algumas das principais instituições de
pesquisa do país. A pesquisa foi apresentada no dia 23 de maio na Faculdade de
Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP).
Em 2009,
o EMCB estimou que os prejuízos causados ao Brasil pelas mudanças climáticas
podem chegar a R$ 3,6 trilhões nos próximos quarenta anos.
Graças à
nova metodologia, o estudo realizado tem um grau de detalhamento muito maior,
traçando um quadro geral do futuro da economia mineira para setores, regiões e
microrregiões consistente com as premissas utilizadas pelo Painel
Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês).
A nova
metodologia foi fruto da tese de livre-docência de Eduardo Haddad,
coordenador-geral do estudo e diretor de Pesquisas da Fipe. Haddad é professor
da FEA-USP, onde defendeu a tese em 2004.
Segundo
Haddad, a metodologia – denominada “modelo espacial de equilíbrio geral
computável”– está sendo aplicada em trabalhos sobre impacto econômico de
mudanças climáticas no Brasil e em outras regiões do mundo, como Áustria,
Colômbia, Equador e no arquipélago português dos Açores.
“Chegamos
a um modelo econômico capaz de lidar de maneira consistente com a integração de
modelos de demanda e oferta de energia, de uso da terra e de produtividade
agrícola, que por sua vez são integrados a modelos climáticos. Desenvolvemos
esses modelos no contexto espacial, incorporando avanços teóricos recentes”,
disse Haddad.
Para
avaliar os impactos climáticos na economia de Minas Gerais, foram considerados
dois cenários de referência, elaborados com e sem a ocorrência de mudanças
climáticas nos setores de agricultura, pecuária e energia.
Os
pesquisadores geraram dois cenários climáticos alinhados com os cenários A2 e
B2 do IPCC. O cenário A2 considera uma situação com aumentos de temperatura
variando entre 3 e 5 graus Celsius. O cenário B2 projeta um aumento entre 2 e 4
graus.
“Em ambos
os cenários, concluímos que as mudanças climáticas terão impactos negativos
muito importantes sobre a economia mineira. Os impactos climáticos poderão
diminuir o PIB estadual entre 1% no cenário A2 e 2,7% no cenário A1. Com isso,
a redução acumulada do PIB do estado nesse período poderá variar de R$ 155
bilhões a R$ 450 bilhões, a preços de 2008”, disse Haddad.
Os
resultados das simulações sugerem ainda que as mudanças climáticas podem levar
a uma redução significativa das áreas florestais nos estabelecimentos
agrícolas, aumentando a pressão por desmatamento em Minas Gerais.
O estudo
também apontou que as mudanças climáticas deverão provocar aumento da
concentração espacial da atividade econômica, ampliação das desigualdades
regionais, redução do bem-estar nas áreas rurais e aumento das pressões sobre
as aglomerações urbanas.
“O estudo
apontou que as mudanças climáticas são uma ameaça maior para as regiões mais
pobres do estado. Os prejuízos ao PIB regional deverão ser mais altos nessas
regiões, intensificando-se ainda mais ao longo do tempo. As microrregiões do
norte de Minas Gerais e do Vale do Jequitinhonha deverão ser as mais afetadas”,
apontou Haddad.
As
microrregiões localizadas no noroeste de Minas Gerais, no Triângulo Mineiro, na
Zona da Mata e no sul do estado também deverão apresentar participação nos
custos superiores a suas participações no PIB do estado, de acordo com o
estudo.
Segundo
Haddad, as estimativas sobre os impactos das mudanças climáticas na economia
mineira são conservadoras, uma vez que o trabalho se concentrou nas
transformações causadas pelo aumento de temperatura na variação do regime de
chuvas, mas não considerou outras consequências esperadas, como o aumento de
frequência de eventos extremos como inundações, secas e catástrofes.
No
estudo, os pesquisadores sugerem um conjunto de políticas que podem ser
adotadas para impedir os prejuízos previstos. “O estudo fornece subsídios para
políticas públicas de mitigação dos efeitos econômicos das mudanças climáticas
e de promoção de adaptações aos seus efeitos, que tendem a se intensificar na
segunda metade do século. Se nada for feito, entraremos em uma trajetória
desastrosa que levará à perda de até dois anos de PIB em quatro décadas”, disse
Haddad.
Entre
outras recomendações, o estudo sugere a canalização de recursos para a promoção
do desenvolvimento das regiões norte e nordeste do estado, mas com maior foco
em projetos que promovam a sustentabilidade ambiental regional.
Outra
recomendação é a criação de políticas de ordenamento de uso de solo, de modo a
garantir o cumprimento das metas de redução de desmatamento, e o
desenvolvimento de tecnologia com vistas à adaptação dos cultivares a condições
climáticas mais adversas, fundamental para reduzir a vulnerabilidade dos
produtores agrícolas.
Por Fábio de Castro - Agência
FAPESP
O estudo
está disponível em: http://www.usp.br/nereus/wp-content/uploads/Relatorio_Resumo_FEAM_para_publicacao-online-final.pdf .




