terça-feira, 10 de agosto de 2021

Existe nível seguro de consumo de álcool na doença cardiovascular?

Há divergências entre as doses "seguras para a saúde" indicadas nas diretrizes (especialmente nas britânicas e norte-americanas), apresentando evidências de que o consumo agudo ou em doses não elevadas pode afetar a microestrutura do miocárdio, elevar a pressão arterial ou causar fibrilação atrial em idosos, e estudos discordam da existência ou da magnitude de benefícios associados ao consumo leve a moderado de bebidas alcoólicas.

A relação entre consumo de álcool e câncer esquenta ainda mais essa discussão. Recentemente, uma publicação mostrou que o consumo moderado (< 20 g/d, o que equivale a cerca de duas doses por dia) respondeu por 13,9% dos casos de tumores atribuíveis ao álcool. 

Enfim, parece haver consenso sobre a falta de justificativas para recomendar o consumo de álcool para proteger a saúde. Por outro lado, o "consumo social" é comum, e a definição dos seus limites é subjetiva e variada, portanto, é muito importante para o cardiologista saber se existe um nível seguro de consumo de álcool por pacientes com doença cardiovascular. Esta é uma questão complexa, pouco estudada, mas extremamente relevante para a prática clínica.

Diante da carência de informações atualizadas e robustas, um estudo recente procurou obter respostas para o tema. 

O estudo

Os autores realizaram uma série de metanálises de novos achados de três grandes coortes e incluíram, também, 12 estudos cuidadosamente selecionados. Eles avaliaram o consumo de álcool em relação à mortalidade por todas as causas, mortalidade cardiovascular e eventos cardiovasculares subsequentes com dados de: 

-14.386 pacientes com história de infarto do miocárdio, angina ou acidente vascular cerebral registrados no UK Biobank Study que tiveram acompanhamento médio de 8,7 anos. No total, foram 1.640 mortes e 2.950 eventos subsequentes; 

-2.802 pacientes e 1.257 mortes em 15 ondas do Health Survey for England de 1994 a 2008; 

-três ondas do Scottish Health Survey de 1995, 1998 e 2003, com acompanhamento médio de 9,5 anos;

-12 estudos publicados identificados por meio de uma revisão sistemática, fornecendo dados de 31.235 pacientes, 5.095 mortes e 1.414 eventos subsequentes.

Foi então determinada uma associação entre a quantidade de álcool consumido e cada desfecho analisado nos dados agrupados de 48.423 pacientes. Os pesquisadores ajustaram pelo menos para idade, sexo e tabagismo.

Os principais resultados mostraram que, em pessoas atualmente abstêmias, houve uma associação em forma de J entre a quantidade de álcool consumido e todos os desfechos avaliados, com uma redução de risco que atingiu o pico de 7 g/dia para mortalidade por todas as causas, 8 g/dia para mortalidade cardiovascular e 6 g/dia para eventos cardiovasculares e permaneceram significativos até 62 g, 50 g e 15 g/dia, respectivamente.

Não foram encontrados riscos elevados estatisticamente significativos associados a níveis mais altos de consumo de álcool.

Os autores concluíram que, na prevenção secundária da doença cardiovascular, quem bebe pode continuar a beber, mas as pessoas devem ser informadas de que um risco de recorrência e de morte mais baixo provavelmente está associado a um consumo mais moderado de bebidas alcoólicas.

O consumo definido como "seguro" foi de até 105 g por semana, o que corresponde a aproximadamente 13 copos de 350 mL de cerveja, sete taças de 150 mL de vinho ou 13 doses de 45 mL de bebida destilada. Este foi indicado como o limite de consumo de álcool por semana.

Implicações

Podemos indicar esse limite para os nossos pacientes?

O limite sugerido no trabalho em tela é um pouco inferior ao recomendado na maioria das diretrizes atuais, porém, os autores apontaram possíveis vieses metodológicos nos estudos incluídos, o que pode ter dado a impressão de que doses mais baixas estariam associadas a uma redução dos riscos mais acentuada, bem como a falta na evidências de risco entre pessoas que bebem muito. Estes e alguns outros problemas metodológicos são frequentes nos estudos sobre consumo de álcool e restringem mudanças nas recomendações das diretrizes.

O limite de consumo apontado pelos pesquisadores pode servir como parâmetro básico ao conversarmos com os pacientes, mas devemos esclarecer que, atualmente, a melhor recomendação é evitar a bebida ou beber o mínimo possível – seja qual for a bebida alcoólica. É nossa obrigação orientar, mas cada paciente decide o que faz.

Por: Dr. Mauricio Wajngarten em Medscape

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