Dados
de agências internacionais apontam que maioria dos países em desenvolvimento
não tem políticas eficazes de prevenção da doença
De acordo com a União Internacional
para o Controle do Câncer (UICC, sigla em inglês) e a Agência Internacional
para Pesquisa em Câncer (IARC, sigla em inglês), 1,5 milhão de mortes
prematuras por câncer poderiam ser evitadas todos os anos. O dado, divulgado
aponta que para evitar essas mortes, é preciso estabelecer medidas para
alcançar as metas estabelecidas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para
2025.
Atualmente, 7,6 milhões de pessoas
morrem todos os anos no mundo por causa do câncer. Dessas, 4 milhões são mortes
prematuras, de pessoas com idades entre 30 e 69 anos. De acordo com os órgãos,
se não forem feitas mudanças nas políticas de tratamento da doença, até 2025 o
número anual de mortes prematuras deve subir para 6 milhões.
“Há uma necessidade de comprometimento
global para ajudar nos avanços políticos e incentivar a implementação de planos
nacionais de controle do câncer. Se conseguirmos sucesso nisso, teremos uma
responsabilidade coletiva em apoiar países de renda baixa e média, que precisam
resolver epidemias de câncer sem os recursos necessários”, diz Christopher
Wild, diretor o IARC.
Prevenção
Segundo dados divulgados pela OMS,
mais da metade dos países do mundo têm dificuldades em prevenir o câncer e em
fornecer tratamento adequado aos pacientes. Isso significa que esses países não
conseguem manter um controle efetivo da doença, que inclui programas de
prevenção, de detecção precoce e de terapias. Apenas 17% dos países africanos,
por exemplo, e 27% dos países de baixa renda têm programas de controle da
doença.
Dados da OMS apontam ainda que 13
milhões de novos casos são diagnosticados todos os anos no mundo. Mais de dois
terços desses novos casos e das mortes acontecem em países em desenvolvimento,
nos quais a incidência da doença continua a crescer em níveis alarmantes.
Pesquisas demonstram que cerca de um terço das mortes acontecem em função de
situações de risco como uso de tabaco, obesidade, bebidas alcoólicas e
infecções.
Brasil
O Instituto Nacional de Câncer (Inca)
divulgou uma campanha que busca esclarecer os mitos e verdades sobre a doença.
Entre outras questões, o instituto aborda temas como a maior incidência da
doença em mulheres, os fatores de risco que podem levar ao desenvolvimento de
um tumor e a prevenção dos casos mais comuns no país, como o câncer de pele.
De acordo com o Instituto do Câncer do
Estado de São Paulo (Icesp), cerca de 70% dos pacientes com tumores de bexiga
tratados no centro tinham histórico de tabagismo — um dos principais fatores de
risco para a doença. Dos pacientes tratados com esse tipo de tumor, 50% tiveram
diagnóstico tardio, sendo o sangue na urina o sinal clínico mais importante,
manifestado em 88% dos casos.
Dados do Icesp apontam ainda que cerca
de 30% dos pacientes com câncer na orofaringe (boca, garganta e faringe) que
passaram por operação podem ter desenvolvido o câncer em decorrência do
papiloma vírus humano (HPV). O Instituto recebe, em média, 1.200 novos casos
cirúrgicos dessa doença por ano. De total de pacientes atendidos pela unidade
de Cabeça e Pescoço, 11% tiveram ou ainda têm dependência alcoólica — 95% dos
pacientes com esse perfil são homens.
Nova droga usa o sistema imunológico do
paciente para combater o câncer
O que diz a pesquisa: Usando uma substância chamada
BMS-936558, cientistas conseguiram usar o próprio sistema imunológico de alguns
pacientes contra o tumor que estavam desenvolvendo. Normalmente, o câncer
consegue se disfarçar e não ser atacado pelas nossas células de defesa. Um dos
métodos utilizados pelas células cancerígenas para passar despercebidas é pela
ação de uma proteína chamada PDL1, que se comunica com uma outra proteína
presente em nossos glóbulos brancos, a PD1. A nova droga impede essa
comunicação, e faz com que essas células de defesa ataquem o tumor.
Como foi feita: O medicamento foi administrado a 76
pacientes com câncer de pulmão de células não-pequenas, o tipo mais comum da
doença. Em 18% dos casos, o tumor diminuiu ou parou de crescer. De 33 pacientes
com câncer nos rins, 27% também responderam ao tratamento, e de 94 que tinham
melanoma, 28% apresentaram melhoras.
Porque é importante: A pesquisa ainda é inicial, mas já se
mostra promissora – são os melhores resultados conseguidos com algum tratamento
de imunoterapia até hoje. Particularmente importantes foram seus efeitos nos
pacientes com câncer de pulmão, que sempre se mostraram resistentes a esse tipo
de tratamento.
Opinião do especialista: Milton José de Barros e Silva,
oncologista clínico do Hospital A. C. Camargo
"É uma pesquisa inicial, mas sem
sombra de dúvida bastante estimulante, pelas perspectivas futuras que abre. Seu
mecanismo de ação é inteligente e ela apresenta bons resultados
preliminares."
"A célula que podia destruir o
câncer é o linfócito T. O problema é que quando ela chega no tumor, existe uma
substância que desliga o linfócito. O que essa droga faz é se ligar no
linfócito e cobrir esse botão de desligar. No entanto, o tratamento não é
isento de efeitos colaterais. O sistema imunológico também pode atacar os
tecidos saudáveis."
"A área da imuno-oncologia está
em franca expansão. Ela não está voltada ao desenvolvimento de drogas contra o
câncer, mas em drogas que estimulem o sistema imunológico contra os tumores.
Hoje, já temos uma droga deste tipo em uso: a Anti–CTLA-4. Ela já foi aprovada
nos Estados Unidos, e está sendo analisada pela Anvisa."
Medicamento reduz efeitos colaterais no tratamento
do câncer de mama
O que diz a pesquisa: Um novo medicamento é capaz de
combater o câncer de mama metastático do tipo HER2-positivo, que atinge até 20%
das pacientes, sem atacar as outras células do organismo. Ainda em fase
experimental, a droga T-DM1 promete prolongar a sobrevida e retardar a evolução
da doença nessas pacientes, sem causar os efeitos colaterais típicos da
quimioterapia, como perda de cabelo e diarreia. Ele é formado pela combinação
de duas substâncias que já existem no mercado: o trastuzumabe e o
quimioterápico emtansine (DM1). O trastuzumabe se liga às células cancerígenas
que tenham o reagente HER2-positivo. Logo depois, o emtansine localiza essas
células e as destrói.
Como foi feita: O estudo foi realizado com 991
pacientes, sendo que todas já haviam sido tratadas apenas com trastuzumabe.
Metade do grupo recebeu o T-DM1, e a outra metade o tratamento padrão. Aquelas
que passaram pelo novo tratamento não apresentaram progressão da doença por 9,6
meses, contra 6,4 meses no grupo controle. Das pacientes que tomaram o T-DM1,
43,6% tiveram os tumores reduzidos, enquanto apenas 30,8% do grupo controle
apresentaram redução. No grupo que recebeu o medicamento, houve um aumento de
7,1 meses de qualidade de vida (sem progressão da doença). Já no grupo que
recebeu os quimioterápicos tradicionais, o aumento foi de 4,6 meses.
Porque é importante: Como a substância não ataca as células
saudáveis do corpo, as pacientes conseguem viver por mais tempo com menos
efeitos colaterais decorrentes do tratamento.
Opinião do especialista: Solange Moraes Sanches, oncologista
clínica do Hospital A. C. Camargo
"Quando falamos no câncer de
mama, estamos tratando de várias doenças. Uma delas é o subtipo HER2-positivo.
Ele é responsável por cerca até 20% dos casos de câncer de mama, e é bastante agressivo.
As pacientes que sofriam com ele eram as que tinham uma maior evolução no
câncer. Já há alguns anos essa história começou a mudar, justamente por conta
do trastuzumabe."
"Quando você usa o trastuzumabe,
ele se liga diretamente a essas células tumorais. O que acontece é que o
trastuzumabe tem ação importante, mas pequena, e acabava tendo que ser usado
junto com a quimioterapia. O grande problema da quimioterapia é que ela ataca
tanto as células corporais quanto as normais."
"Com essa nova medicação, o
trastuzumabe é ligado na molécula de um quimioterápico. A grande sacada foi
fazer essa ligação entre os dois medicamentos. Depois de jogado no sangue, ele
vai se ligar somente nas células com o HER2, e jogar a substância tóxica ali
dentro."
"Esse tratamento aumentou tanto o
tempo que o tumor leva para crescer quanto o tempo de vida. É uma grande
pesquisa, um dos melhores resultados da ASCO. Essa medicação está sendo
aguardada com expectativa pelos oncologistas. Agora, ela está aguardando
aprovação pelo FDA, o que não acontece antes de 2 anos."
Hormônio experimental aumenta tempo de vida de
pacientes com câncer de próstata avançado
O que diz a pesquisa: Um hormônio chamado enzalutamida é
capaz de aumentar o tempo de vida de pacientes com câncer de próstata avançado
em cerca de cinco meses, além de melhorar sua qualidade vida. Para crescer, o
tumor na próstata necessita da ação da testosterona. O hormônio atrapalharia
essa interação.
Como foi feita: Os testes foram realizados em 1.119
homens com uma forma avançada de câncer de próstata, que pararam de responder à
quimioterapia. Para metade deles, os pesquisadores forneceram o hormônio,
enquanto a outra metade recebeu placebos. Como resultado, aqueles que tomaram o
medicamento viveram em média 18,4 meses, enquanto o outro grupo viveu 13,6.
Além disso, 43% daqueles que passaram pelo tratamento apresentaram melhoras em
sua qualidade de vida. Entre os que tomaram placebo, o número foi de 18%.
Porque é importante: Até pouco tempo, não existiam
tratamentos para esse tipo de câncer. Apesar de não representar uma cura para a
doença, o hormônio pode dar a esse paciente mais alguns meses de vida, com
menos dores e sofrimento.
Opinião do especialista: Stênio de Cássio Zequi, cirurgião
oncologista do Núcleo de Urologia do Hospital A. C. Camargo.
"O principal 'combustível' do
câncer de próstata é a testosterona, o hormônio masculino. Até por volta de
oito anos atrás, o tratamento para paciente com câncer de próstata metastático
era tirar esse hormônio de seu corpo. Ele era submetido a uma espécie de
castração. Enquanto o homem normal tem um nível de testosterona de 240 a 800,
diminuíamos o nível do doente para 20. O tumor regredia, o cansaço e as dores diminuíam.
Porém, depois de 15 a 18 meses, o câncer arranjava outros modos de se
'alimentar' no corpo do doente, e a doença voltava. O próprio ambiente tumoral
produz substâncias que estimulam o câncer. Mais recentemente, começamos a usar
nesses pacientes substâncias que bloqueavam o receptor da testosterona, para
não ter de realizar a castração. Esses medicamentos são conhecidos como
antiandrogênicos."
"Há alguns anos, houve um grande
avanço nesse campo e surgiram novas drogas superandrogênicas. Elas têm um efeito
colateral menor e são de uso oral, o que aumenta a qualidade de vida do
paciente. É o caso da enzatulamida. Os pesquisadores testaram a substância em
pacientes que não respondiam mais à quimioterapia. Neles, ela aumentou sua vida
em até cinco meses. Pode não parecer muito, mas é um ganho palpável.
Normalmente o tratamento nessa etapa tem muitos efeitos colaterais. Nesta fase
a gente quer aumentar o tempo de vida, mas também com qualidade de vida. E
neste estudo 43% dos que tomaram a droga relataram melhoras na qualidade de
vida."
"É uma droga que entra no arsenal
terapêutico de uma doença que era muito mortal. A cada seis meses surgem novas
notícias nesse campo. São várias luzinhas no fim do túnel. Estou nessa área há
19 anos e nunca ouvi tanta notícia boa quanto nos últimos dois."
Ginseng reduz exaustão entre pacientes com câncer
O que diz: Pesquisadores da Clínica Mayo, nos
Estados Unidos, concluíram que tomar grandes quantidades de ginseng ajuda a
reduzir a fadiga e a exaustão em pessoas com câncer. Segundo os pesquisadores,
a fadiga entre esses pacientes pode estar associada um aumento dos níveis de
citocina, molécula que desencadeia inflamações no corpo. Estudos feitos com
animais mostram que o ginseng reduz a quantidade da citocina no organismo — o
que pode ajudar a explicar resultados.
Como foi feita: Os cientistas estudaram 340 pacientes
que haviam concluído ou que estavam em tratamento contra um câncer. Durante
oito semanas parte deles recebeu placebo, enquanto o resto consumiu uma cápsula
com dois gramas de ginseng puro por dia. Depois desse período, os pacientes que
receberam a raiz relataram sentir 20% menos exaustão do que o restante dos
participantes.
Porque é importante: Qualquer droga que possa diminuir a
fadiga, um dos sintomas mais comuns em pacientes com câncer, é uma avanço. No
entanto, os cientistas alertam que aqueles que queiram utilizar o ginseng devem
procurar orientação médica, pois ele pode interferir no efeito de outros medicamentos
utilizados para combater a doença.
Opinião do especialista: Solange Moraes Sanches, oncologista
clínica do Hospital A. C. Camargo
"A fadiga é um sintoma muito
comum nos pacientes com câncer e que atrapalha sua qualidade de vida. Existem
muitas causas: a atividade da doença, o próprio tratamento e o efeito de alguns
medicamentos."
"O problema dessa pesquisa é que
ela não leva em conta outros fatores. A gente não sabe qual era o estado de
humor do paciente, se o seu tratamento era preventivo ou se a doença estava
ativa. Essas situações podem colaborar com maior ou menor grau na fadiga. O
trabalho só levou um fator: o uso de ginseng. É um trabalho interessante, mas a
meu ver não dá subsídio para prescrever a substância."
"É preciso tomar cuidado com a
segurança das medicações. Mesmo as substâncias ditas naturais têm interação
medicamentosa e podem causar efeitos colaterais. É importante que ninguém saia
tomando ginseng sem falar com seu médico."
Nova substância interfere no crescimento do
melanoma
O que diz a pesquisa: Uma droga chamada trametinib
atrapalha o crescimento do tumor em pacientes com um tipo avançado de melanoma,
além de aumentar seu tempo de vida. O medicamento só tem efeito em pacientes
que apresentem mutação em um gene chamado BRAF, responsável por cerca de metade
dos casos da doença.
Como foi feita: O estudo envolveu 322 pacientes com
melanoma avançado. Uma parte recebeu o tratamento com trametinib, enquanto a
outra parte recebeu quimioterapia comum. A droga desacelerou ou parou o
crescimento do melanoma em 22% dos pacientes que receberam o novo tratamento.
Somente 8% dos que passaram pela quimioterapia tiveram o mesmo resultado.
Depois de seis meses, 81% dos pacientes que receberam a droga estavam vivos,
número que ficou em 67% entre os que passaram pela quimioterapia.
Porque é importante: Se descoberto cedo, o melanoma pode
ser facilmente curado ao se retirar cirurgicamente a região de pele danificada.
No entanto, sempre foi difícil tratar o tumor depois que ele se espalhava. A
nova pesquisa traz esperanças para os pacientes que sofrem da forma avançada da
doença.
Opinião do especialista: Milton José de Barros e Silva,
oncologista clínico do Hospital A. C. Camargo
"Em 50% dos melanomas há uma
mutação nos genes BRAF, que confere um estímulo ao crescimento do tumor. A
droga não atua diretamente BRAF, mas numa molécula que é estimulada por ele.
Nesse estudo, os especialistas compararam o uso desse tratamento contra a
quimioterapia. Podemos observar um benefício em termo de sobrevida do
paciente."
"Quando o melanoma é
diagnosticado nas fases inicias, ele é curado na maioria dos casos. Mas depois
da metástase, a chance de cura é pequena. Os números dessa pesquisa não são tão
animadores, mas ela ajuda a entender melhor como o melanoma funciona e cresce.
Isso, num horizonte mais longínquo, pode levar à cura."
Medicamento para câncer de pulmão se mostrou
efetivo contra três tipos de tumores infantis
O que diz a pesquisa: A droga crizotinib, desenvolvida
originalmente para combater o câncer de pulmão, também se mostrou efetiva
contra três tipos de câncer infantil: o neuroblastoma, o linfoma anaplásico de
grandes células e o tumor miofibroblástico inflamatório. Em alguns dos casos, o
câncer desapareceu completamente. O medicamento ataca especificamente mutações
genéticas no gene ALK, que está presente em todos esses tipos de câncer.
Como foi feita: Os cientistas receitaram crizotinib
para 70 crianças que possuíam um desses três tipos de câncer. Dezoito meses
depois do tratamento, eles descobriram que 88% das crianças com o linfoma
anaplásico de grandes células não tinham mais evidências do câncer. Já entre as
27 crianças com neuroblastomas, em três o tumor desapareceu, e em oito ele
parou de crescer. O câncer também havia desaparecido ou diminuído na maior
parte dos pacientes com o tumor miofibroblástico inflamatório.
Porque é importante: Essas três formas de câncer infantil são extremamente agressivas e resistentes. A nova descoberta pode levar a técnicas que interfiram no crescimento do tumor e a tratamentos efetivos contra a doença.
Porque é importante: Essas três formas de câncer infantil são extremamente agressivas e resistentes. A nova descoberta pode levar a técnicas que interfiram no crescimento do tumor e a tratamentos efetivos contra a doença.
Opinião do especialista: Thiago Bueno de Oliveira, oncologista
clínico do Hospital A. C. Camargo
"O crizotinib é uma droga nova
utilizada no tratamento do câncer de pulmão. Alguns desses tumores têm sua
progressão induzida por uma alteração genética. Por causa dela, a célula é
levada a se dividir cada vez mais. É como um acelerador sempre pressionado. A
partir desse conhecimento se desenvolveu a droga, que inibe o hiperfuncionamento
desse gene. Descobriu-se agora que outros tipos de tumores também são induzidos
por essa mesma causa, como alguns tumores que atingem crianças."
"Os resultados do crizotinib são
muito melhores que a quimioterapia – 88% é um número muito alto. E é uma droga
que não traz efeitos colaterais. Ela é muito recente, está em testes há cerca
de dois anos, e ainda não está disponível comercialmente no Brasil."
Nova radioterapia pode tratar câncer nos rins
O que diz a pesquisa: Um novo tipo de radioimunoterapia,
chamado In-111-cG250, começou a ser estudado para tratar uma forma resistente
de câncer de rim, o carcinoma renal de células claras. O medicamento é capaz de
atingir as células cancerígenas e aplicar uma dose poderosa e precisa de
radiação diretamente no tumor. A pesquisa mais recente mostrou, no entanto, que
a substância que pode ter sua efetividade diminuída se usada junto com outras
drogas, como o sorafenib. Esse medicamento interfere no crescimento das células
do câncer, mas também afeta a habilidade do In-111-cG250 de encontrar esses
tumores.
Como foi feita: Os pesquisadores recrutaram 15
pacientes que sofriam com câncer de rim. Destes, 10 recebiam o tratamento com o
sorafenib. Todos passaram pela radioimunoterapia. Os estudos mostraram que o
tratamento foi menos efetivo entre aqueles que consumiram anteriormente o outro
medicamento.
Porque é importante: A pesquisa ajuda a desenvolver
regimes terapêuticos mais efetivos para tratar o carcinoma renal de células
claras. Como resultado, os pesquisadores sugerem que o tratamento com
In-111-cG250 deveria ser prescrito antes do sorafenib.
Opinião do especialista: Stênio de Cássio Zequi, cirurgião
oncologista do Núcleo de Urologia do Hospital A. C. Camargo.
"Existem cinco tipos de câncer de
rim. O carcinoma renal de células claras é uma das formas mais letais da
doença, e representa 80% dos casos. Ultimamente, o diagnóstico de cânceres
pequenos tem aumentado. No entanto, embora a gente faça o diagnóstico mais
cedo, a mortalidade não tem caído. Pelo menos 30% dos doentes já têm metástase
quando o diagnóstico é feito. Esse carcinoma não responde bem tanto à
quimioterapia quanto à radioterapia convencional."
"Nos últimos anos, tem aparecido
uma infinidade de novas drogas que funcionam de modo diferente da
quimioterapia. Elas são conhecidas como drogas inteligentes. Quando você joga a
quimioterapia no sangue, ela mata tudo que está crescendo, como o cabelo e a
mucosa oral e digestiva. Não consegue distinguir entre mocinho e bandido. Já
essa nova terapia de alvos moleculares é inteligente. São anticorpos voltados
contra determinados fatores de crescimento tumoral, e vão atingir só aquele
alvo. Logo, têm menos efeitos colaterais."
"O estudo usou um radiofármaco de
alcance pequeno, o In-111, que emite uma radiação de milímetros quando é
injetado na veia. Já o cG250 é um anticorpo inteligente, que gruda no receptor
PKI, presente em uma parte dos cânceres de rim. Ao juntá-los, os pesquisadores
fazem com que o In-111 irradie somente onde tiver tumor."
"Os pesquisadores estudaram
pacientes que já tinham recebido uma outra droga bastante usada, o sorafenib.
Nesses casos, o anticorpo aderiu menos ao seu alvo. A conclusão da pesquisa é
que esse tratamento tem efeito, mas é inibido se aplicado depois do sorafenib."
"A pesquisa é pequena, precisamos
de mais estudos. Ainda assim, ela abre uma nova janela para tratar o câncer de
rim no futuro. O que me alegra nessa notícia é o conceito por trás dela.”
Tratamento pode curar câncer de pele sem
necessitar de hospitalização
O que diz a pesquisa: Um novo tipo de adesivo cutâneo foi
capaz de destruir tumores faciais em 80% dos pacientes estudados, sem
necessidade de cirurgia ou terapia radiológica. Os pacientes tratados sofriam
com carcinoma de células basais, o tipo de câncer mais comum a atingir as
camadas superficiais da pele. O adesivo, chamado de p-32, é capaz de aplicar
doses de radiação nos pontos afetados, sem necessitar a internação do paciente.
Como foi feita: Os cientistas aplicaram os adesivos em
10 pacientes com carcinoma de células basais na face. As lesões se concentravam
ao redor dos olhos, nariz e testa. Eles usaram os adesivos durante três horas,
em três dias diferentes. As doses de radiação foram aplicadas somente nas
regiões lesionadas, sem causar danos em outras áreas da pele. Três meses
depois, os pesquisadores realizaram biópsias nos pacientes: em 8 dos dez casos,
eles estavam completamente curados.
Porque é importante: É um tratamento simples e barato, que
não necessita da internação do paciente. Com mais estudos, ele pode se tornar
tanto o tratamento padrão para esse tipo de câncer quanto uma terapia
alternativa, a ser usada quando a cirurgia e radioterapia não forem possíveis.
Opinião do especialista: Milton José de Barros e Silva,
oncologista clínico do Hospital A. C. Camargo
"O carcinoma é o tipo mais comum
de câncer de pele, com altas chances de cura. Normalmente, ele é tratado com
cirurgia. Muitas vezes ele se desenvolve em áreas expostas ao sol, como a face.
Infelizmente a cirurgia nessa região tem um aspecto mutilador. Esse estudo
facilita o tratamento do tumor nessa região."
"É uma pesquisa inicial, feita em
poucos pacientes. Ela não substitui a necessidade do diagnóstico precoce e da
intervenção cirúrgica. Não vejo esse tratamento disponível de forma rotineira,
porque depende da medicina nuclear. Ele é um adesivo contendo fósforo 32, um
elemento radioativo. Isso exige uma certa estrutura, não dá para ter em
qualquer lugar do país. Vai ser uma opção para os casos em que as cirurgias
possam trazer muito dano. Mas os pesquisadores ainda precisam mostrar que a
regressão do tumor é definitiva."
Técnica permite descobrir rapidamente resultado de
tratamentos contra câncer no cérebro
O que diz a pesquisa: Uma nova técnica de imagem molecular
permite descobrir o resultado do tratamento contra um tipo de câncer cerebral,
o glioma, em até duas semanas. Normalmente, esse tipo de tumor é tratado com
cirurgias, radio ou quimioterapia, mas ele é conhecido por reaparecer depois do
tratamento. A pesquisa descobriu que, para descobrir se a técnica foi efetiva,
os médicos devem injetar no paciente uma substância que imita um aminoácido
presente no cérebro. Eles podem concluir se o câncer ainda está ativo ao
analisar a concentração dessas proteínas, uma vez que as células do tumor
agrupam mais essa substância do que as saudáveis.
Como foi feita: Trinta pacientes com o glioma passaram
pelo processo imediatamente antes do tratamento e duas semanas depois. Aqueles
nos quais as imagens mostravam a regressão do câncer viveram até três vezes
mais do que aqueles que não responderam bem ao processo.
Porque é importante: Esse tipo de tumor é extremamente
agressivo. Nesses casos, uma técnica capaz de descobrir rapidamente se o
paciente respondeu ao tratamento é essencial. Até agora, não existia nenhuma
método não-invasivo de fazer isso.
Opinião do especialista: Milton José de Barros e Silva,
oncologista clínico do Hospital A. C. Camargo
"O glioma é muito agressivo, e
costuma voltar depois do tratamento na maioria dos casos. É importante
diagnosticá-lo rapidamente porque ele pode trazer muita morbidade. Se
descoberto de forma tardia, pode trazer danos motores e neurológicos. Esse
tumor pode deixar sequelas, dependendo de sua localização, extensão e do tipo
de terapia. Quanto mais rápido se souber da existência do tumor, melhores as
condições de tratá-lo e menos sequelas."
Pesquisa mostra como o câncer no pâncreas engana o
sistema imunológico
O que diz a pesquisa: Ela mostra a estratégia usada pelo
câncer no pâncreas para não ser atacado pelas células do sistema imunológico do
paciente. Isso se deve a uma mutação no gene KRAS, presente em 95% desses
cânceres. Esse gene expressa a proteína GM-CSF, que gera uma acumulação de
células supressoras em volta do tumor. São essas células que protegem o câncer,
deixando-o livre para crescer.
Como foi feita: Os cientistas bloquearam a produção da
proteína GM-CSF em células de câncer no pâncreas de ratos. Desse modo, eles
conseguiram acabar com a acumulação de células supressoras, liberando a
resposta do sistema imunológico dos animais.
Porque é importante: Descobrir como o câncer no pâncreas,
conhecido por sua natureza agressiva, consegue escapar do sistema imunológico é
o primeiro passo para interromper o avanço da doença. As terapias a disposição
hoje em dia são pouco efetivas contra esse tipo de tumor — somente 4% dos
pacientes conseguem sobreviver depois de 5 anos do diagnóstico.
Opinião do especialista: Milton José de Barros e Silva,
oncologista clínico do Hospital A. C. Camargo
"O diagnóstico de câncer de
pâncreas é muito grave, já que normalmente acontece quando o tumor já está
avançado. Nesta etapa, ele já tem muitas mutações, que o tornam resistente a
tratamentos. Pela primeira vez, vislumbramos um tratamento efetivo para essa
doença. No entanto, essa pesquisa foi realizada em nível laboratorial, ainda
não foi testada em seres humanos."
"Nosso sistema imunológico vive
em equilíbrio entre dois polos: o ataque e o repouso. O que o câncer faz é usar
as células do corpo que atuam na modulação desse equilíbrio, e as estimula a
trabalhar em seu benefício. A mutação nos genes KRAS é uma das mais frequentes
no câncer de pâncreas — aparece em 95% deles. Uma das consequências dessa
mutação é um estimulo que leva as células supressoras do sangue para o tumor,
criando um ambiente que engana o sistema imunológico."
Estudo mostra como infecções podem levar ao
desenvolvimento de câncer no fígado e cólon
O que diz a pesquisa: Um dos maiores fatores de risco para o
câncer no fígado, cólon e estômago são inflamações nesses órgãos causadas por
infecções bacterianas ou virais. Um novo estudo conduzido no MIT mostrou como
isso acontece. Quando o sistema imunológico detecta invasores, ele envia
células chamadas macrófagos e neutrófilos para acabar com a ameaça. Elas fazem
isso englobando a bactéria, células mortas e restos soltos de células
danificadas. Como parte desse processo, essas células liberam químicos muito
reativos, que ajudam a combater a ameaça. No entanto, esses químicos também
podem danificar o tecido humano. Essa inflamação, se durar muito, pode levar ao
câncer.
Como foi feita: Os pesquisadores analisaram mudanças
genéticas e químicas no fígado e colón de ratos infectados com a bactéria Helicobacter
hepaticus, muito similar à Helicobacter pylori,
que causa úlceras no estômago de humanos. Durante 20 semanas, os ratos
desenvolveram infecções crônicas – algumas delas desencadearam câncer. Nesse
período, eles descobriram por volta 12 danos nos DNA e RNA dos ratos, e
analisaram que genes eram ativados ou desativados com o progresso da infecção.
Por exemplo, os neutrófilos liberam ácido hipocloroso quando defendem o cólon.
Esse ácido deveria atacar as bactérias, mas também provoca danos no DNA, ao
adicionar nele um átomo de cloro.
Porque é importante: Ela deve ajudar os médicos a
desenvolver modos de prever as consequências de inflamações crônicas, além de
criar novas drogas para controlar essas inflamações. Os pesquisadores poderiam,
por exemplo, desenvolver modos de bloquear seus efeitos tóxicos e impedir que
acabem desenvolvendo um câncer.
Opinião do especialista: Milton José de Barros e Silva,
oncologista clínico do Hospital A. C. Camargo
"Há muito tempo sabemos que a
inflamação crônica é uma situação que pode levar ao câncer. E que muitas dessas
inflamações são causadas por infecções. O que esse estudo mostra de novo é como
essas infecções promovem as inflamações, e como elas podem levar a alterações
no ambiente normal do órgão."
"O câncer de intestino é sensível
à quimioterapia e temos como tratá-lo. Já o câncer de fígado é muito agressivo,
semelhante ao do pâncreas, e é resistente à maioria dos tratamentos. Entendendo
como as inflamações acontecem, podemos bolar estratégias de prevenção."
"Essa pesquisa, além de gerar
conhecimento, pode trazer novas oportunidades de tratamento. Em cada órgão, a
infecção acontece de um modo diferente, então provavelmente uma droga só não
vai cuidar de todos. Vamos ter que entender como elas acontecem em cada
órgão."
Fonte:
veja.abril.com.br
