Gene interruptor de gene
Sabe
para que servem 10 mil dos 20 mil genes que cada ser humano carrega dentro de
suas células?
A
resposta veio à tona no mês passado, com a divulgação dos resultados da segunda
etapa do projeto de pesquisa internacional conhecido como Encode.
O
Encode teve início em 2003 e envolveu 440 pesquisadores de 32 laboratórios.
A
quantidade de dados gerados foi tamanha que os resultados demandaram nada menos
que 30 artigos científicos diferentes, publicados na Nature e em outras duas revistas.
Epigenética
A
compilação dos dados mostrou que a função de metade de nosso genoma é regular a
atividade da outra metade, uma constatação que surpreendeu até os cientistas.
"Se
alguém dissesse que a metade ou mais dos nossos genes possui informações para
ligar e desligar a outra metade, não sei se alguém acreditaria nele",
comentou John Stamatoyannopoulos, pesquisador da Universidade de Washington, que
participou do projeto.
A
divulgação dos resultados do Encode é uma demonstração da importância que cada
vez mais ganham os estudos da área conhecida como epigenética,
que estuda precisamente os mecanismos de ativação dos genes.
A
epigenética lida com os mecanismos bioquímicos pelos quais os genes são
"ativados" ou "desativados", explica Paula Rahal,
coordenadora do Laboratório de Estudos Genômicos da Unesp em São José do Rio Preto,
que atua na área há uma década.
O
genoma carrega as informações necessárias para criar todas as estruturas que
compõem o organismo. E cada gene possui, de forma codificada, a receita para
produzir uma determinada proteína.
Nos
genes "ativados", a produção da proteína correspondente ocorre
normalmente. Isto é chamado de expressão gênica.
"Os
genes 'desativados' não se expressam, isto é, não conseguem reproduzir a
proteína cuja informação possuem de forma codificada", descreve Paula.
Ambiente
afeta os genes
Há
décadas, pesquisas mostram que fatores como maus hábitos alimentares,
sedentarismo, ingestão de álcool, tabagismo etc. exercem influência negativa na
saúde e muitas vezes estão associados à maior ocorrência de vários males.
Por
meio do estudo dos mecanismos de ativação e desativação genética, os cientistas
estão conseguindo compreender melhor as vias pelas quais se dá esta interação
entre o genoma do indivíduo e o ambiente em que ele vive.
Segundo
Paula, por meio da epigenética estamos começando a entender como o estilo de
vida afeta os genes.
Hoje
já se sabe, por exemplo, que exercícios físicos alteram o DNA e até que o mesmo gene que mata uma pessoa pode não afetar outra.
Nutrigenômica
"Já
há dados na literatura sugerindo que seria possível interferir no funcionamento
dos genes, tanto no caso da obesidade quanto no do câncer, por meio da dieta.
Se isso for possível, poderemos reduzir o uso de medicamentos. Este é um dos
focos da nossa pesquisa", diz Daisy Salvadori, diretora do Laboratório de
Toxicogenômica e Nutrigenômica da Unesp em Botucatu.
A
pesquisa sobre a possibilidade de influenciar o funcionamento dos genes pela
alimentação é denominada de nutrigenômica.
"Duas
pessoas podem seguir exatamente a mesma dieta, mas vão absorver os alimentos de
forma totalmente diferente", explica Bruno Luperini, membro do grupo de
Daisy. "Isso ocorre porque um organismo possui milhares de elementos
diferenciados em relação ao outro. Pode ser que estas diferenças também
influenciem a maneira como cada pessoa responde à cirurgia de redução de
estômago", explica.
A
expectativa é que os resultados ajudem a entender melhor o intrincado
maquinário genético associado à obesidade.
"A
obesidade é uma doença complexa, que resulta da interação entre o ambiente e
vários genes, que possuem funções diferentes. Há aquele que está ligado à
sensação de fome, o que causa a saciedade, o que influencia a escolha por
alimentos mais calóricos, o que está associado à absorção de nutrientes,"
explica Bruno.
Por
isso, a pesquisa vai analisar não um, mas um grupo de milhares de genes, a fim
de identificar sinais de processos epigenéticos que possam estar contribuindo
para que alguns pacientes experimentem uma redução de peso maior do que outros
após a cirurgia bariátrica.
Fonte: Unesp Ciência