A hepcidina é um peptídeo que desempenha papel
fundamental no metabolismo do ferro e na defesa do organismo contra bactérias e
fungos. Seu mecanismo de ação, demonstrado em humanos no ano 2000, agora foi
descrito também em equinos, ovinos e asininos por cientistas da Universidade
Estadual Paulista (Unesp).
“O ferro
é um elemento essencial para a multiplicação de alguns microrganismos”, disse
Alexandre Secorun Borges, professor da Faculdade de Medicina Veterinária e
Zootecnia (FMVZ) de Botucatu. Ao primeiro sinal de infecção, portanto, a
hepcidina entra em ação para reduzir os níveis do mineral na corrente sanguínea
e tornar o ambiente menos propício aos invasores.
“Expressa
principalmente pelas células do fígado, a hepcidina se liga a outra proteína
chamada ferroportina. Isso faz com que o ferro fique retido dentro de algumas
células específicas, em vez de ser exportado para a corrente sanguínea. Por
esse motivo, quadros de inflamação crônica costumam provocar anemia”, explicou
o veterinário.
Estima-se
que esse mecanismo de defesa esteja presente em todos os mamíferos e também em
alguns peixes, mas, segundo Borges, na maioria das espécies o peptídeo ainda
não foi caracterizado e sua função não foi comprovada.
Em
equinos, o gene da hepcidina foi sequenciado pela equipe coordenada por Borges.
A expressão gênica do peptídeo foi analisada em células do fígado e em outros
tecidos de cavalos saudáveis.
A
pesquisa, feita em parceria com cientistas da Universidade de Cornell, resultou
na tese de doutorado de José Paes de Oliveira
Filho. Os resultados foram publicados em artigo na revista Veterinary Immunology and Immunopathology.
Com os
recursos da Bolsa de Doutorado e também de um projeto de Auxílio à Pesquisa –
Regular, o grupo montou o Laboratório de Biologia Molecular da Clínica
Veterinária da FMVZ.
Inflamação
induzida
A segunda
etapa da pesquisa consistiu em comprovar o papel da hepcidina na defesa do
organismo contra infecções. Foram usados dois modelos experimentais para
induzir um quadro inflamatório leve em cavalos sadios.
No
primeiro experimento, os pesquisadores injetaram, por via intravenosa, uma
toxina extraída da membrana de bactérias – o lipopolissacarídeo bacteriano
(LPS). “Isso causa uma inflamação sistêmica discreta, de curta duração e que
não provoca danos de longo prazo aos animais”, contou Borges.
A cada
duas horas após a administração do LPS, os pesquisadores coletavam e analisavam
o sangue dos cavalos. “Os níveis plasmáticos de ferro caíram rapidamente. Por
meio de uma biópsia de fígado, comprovamos que a expressão gênica da hepcidina
havia aumentado nesse órgão”, disse.
Os
resultados do teste foram publicados na revista Innate Immunity.
O segundo
experimento consistiu em aplicar, por via intramuscular, uma substância chamada
adjuvante completo de Freund, composta de micobactérias inativadas. Isso
provocou um processo inflamatório nos animais.
Os
resultados, similares aos do primeiro teste, foram apresentados no American
College Veterinary Internal Medicine, nos Estados Unidos, em 2010. O grupo
realizou experimentos semelhantes em ovinos, com financiamento do Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A pesquisa foi
tema de mestrado de Peres Ramos Badial.
A linha
de pesquisa teve início durante o pós-doutoramento de Borges na Universidade
Cornell. “Analisamos prontuários de cavalos com inflamação crônica, sistêmica e
localizada e comparamos com prontuários de cavalos sadios. Vimos que o ferro
caía consideravelmente e de forma rápida sendo, portanto, um marcador confiável
de inflamação em cavalos”, disse.
Futuramente,
a equipe pretende avaliar como se comporta o metabolismo do ferro em diferentes
enfermidades. “Queremos descobrir se a intensidade na queda dos níveis de ferro
está relacionada à agressividade do quadro inflamatório”, apontou Borges.
Outro
projeto futuro é avaliar se a redução artificial de ferro na corrente sanguínea
pode facilitar o combate a infecções. “Vamos testar se a administração de
hepcidina, como medicamento, ajuda na fase inicial da doença”, disse.
Por Karina Toledo – Agência Fapesp