O fenômeno da poluição ambiental por medicamentos está em crescimento contínuo e, com isso — felizmente — aumenta também a conscientização no meio científico e institucional. Para limitar os danos e alcançar o objetivo final de uma farmacologia sustentável, é necessária uma abordagem global, com base no princípio de One Health, que considere a saúde humana, do planeta e de todos os seres vivos que o habitam.
Essa é a conclusão de autores que publicaram, na revista Drug Discovery Today, um artigo que apresenta um panorama do impacto dos medicamentos no meio ambiente, avaliando todo o ciclo de vida das moléculas, desde a fase de síntese até as embalagens, sem deixar de considerar o papel dos médicos prescritores e dos pacientes.
“Uma abordagem global da saúde é necessária porque estamos diante de um fenômeno difuso e cíclico: quanto mais medicamentos são utilizados, mais eles se acumulam no ambiente, com efeitos nos animais e plantas que os absorvem. Essas moléculas, por sua vez, acabam retornando aos seres humanos, por exemplo por meio da cadeia alimentar”, relatou ao Univadis Itália a Dra. Giovanna Paolone, PhD em neurofarmacologia, coordenadora do Grupo de Trabalho Impacto Ambiental dos Medicamentos da Società Italiana di Farmacologia.
A Dra. Giovanna também é professora de farmacologia na Università di Verona, instituição com forte tradição nesse campo de estudo, graças sobretudo à contribuição do Dr. Giampaolo Velo, um dos primeiros a abordar o conceito de ecofarmacovigilância.
Ecofarmacovigilância: um único conceito, muitas nuances
“Sabe-se que, após o consumo, os medicamentos podem não ser completamente metabolizados pelo organismo, e que entre 30% e 90% podem ser excretados inalterados”, escreveram no artigo os pesquisadores do Basque Sustainable Pharmacy & Biotherapy Research Group, da University of the Basque Country, na Espanha, coordenados pelos Drs. Unax Lertxundi e Gorka Orive, ambos PhD em farmacologia.
Os especialistas descreveram alguns dos aspectos que tornam complexa a ecofarmacovigilância. Entre eles, destaca-se o fato de que os medicamentos e/ou seus metabólitos são continuamente liberados no ambiente. Embora as quantidades possam ser pequenas (“gotas em uma piscina”, como definiu a Dra. Giovanna), a liberação constante faz com que essas substâncias permaneçam sempre presentes.
Além disso, muitas estações de tratamento hoje em operação não conseguem remover completamente moléculas farmacológicas que, consequentemente, acabam atingindo a água, o solo e o ar, onde se acumulam e, por vezes, se misturam. “É preciso lembrar que muitas moléculas são projetadas para serem persistentes ou atravessar as membranas biológicas do organismo, características que influenciam bastante seu impacto ambiental”, destacou a Dra. Giovanna, referindo-se ao chamado “efeito mistura”.
Atualmente, os estudos tendem a avaliar moléculas específicas de forma isolada. Contudo, no meio ambiente, essas substâncias coexistem e podem interagir como agonistas ou antagonistas.
“A realidade é que ainda se está começando a entender quais medicamentos estão presentes no ambiente e em quais concentrações, mas faltam dados experimentais sobre seus efeitos”, continuou a especialista. Estudos conduzidos por seu grupo de pesquisa indicaram que até concentrações muito baixas (10 ug/l) podem induzir efeitos importantes em modelos animais, por vezes distintos entre os sexos.
Do laboratório ao regulatório
A poluição por medicamentos não está relacionada apenas ao princípio ativo — o chamado ingrediente farmacêutico ativo (IFA) —, mas também a outros componentes, como excipientes, metabólitos derivados da molécula original e os materiais utilizados em cartelas e embalagens. Observou-se ainda que o uso de propelentes em algumas formulações está associado à emissão de quantidades elevadas de gases de efeito estufa, que contribuem para o aquecimento global.
Em todas as etapas do ciclo de vida de um medicamento, é possível (e necessário) intervir, começando pelo monitoramento e pela coleta de dados, que constituem um primeiro passo fundamental rumo a uma farmacologia sustentável. “Em âmbito nacional e internacional, há muitos programas e iniciativas nesse sentido”, afirmou a Dra. Giovanna, citando o trabalho realizado na Itália pelo Istituto di ricerca sulle acque do CNR e pelo Istituto Superiore di Sanità no monitoramento de diversos poluentes, incluindo medicamentos. “O país está se alinhando à normativa europeia, e diversos especialistas italianos participam do framework europeu, contribuindo, por exemplo, para a elaboração das listas de observação, ou seja, listas de medicamentos a serem monitorados quanto ao seu impacto ambiental.”
No âmbito regulatório, desde 2006 a avaliação do risco ambiental (Environmental Risk Assessment, ERA) é obrigatória para a autorização de novos medicamentos na União Europeia, segundo as diretrizes da European Medicines Agency. A análise baseia-se na avaliação de persistência, bioacumulação e toxicidade, bem como na estimativa de exposição em função da dose e da abrangência de uso.
É necessário esclarecer que, embora as empresas se comprometam a realizar essa avaliação, atualmente o resultado do ERA não influencia o balanço benefício/risco dos medicamentos de uso humano nem constitui motivo para rejeição da autorização — diferentemente do que é previsto para medicamentos veterinários. Além disso, a avaliação se restringe ao princípio ativo, não contemplando o produto como um todo, o que exclui, por exemplo, os excipientes.
Como destacado no artigo, a reforma da legislação farmacêutica europeia prevê, porém, o fortalecimento dos requisitos ambientais em um futuro próximo, com possíveis repercussões também no processo de autorização.
Formar e informar em todos os níveis
“Nas últimas três décadas, a pegada de carbono global (carbon footprint) atribuída ao setor farmacêutico aumentou 77%, principalmente devido ao aumento do consumo.” Esse dado, relatado no artigo do Dr. Unax, Dr. Gorka e colaboradores, evidencia outro aspecto central para reduzir o impacto ambiental dos medicamentos: o uso mais atento e consciente.
A formação é um dos pilares desse novo modo de compreender a farmacologia. Cursos voltados à sustentabilidade ambiental deveriam ser oferecidos a todos os envolvidos no ciclo de vida dos medicamentos — de farmacologistas e médicos prescritores a químicos e profissionais da produção de moléculas e embalagens. Também é possível adotar soluções mais “amigáveis ao ambiente”, seja na escolha de excipientes, seja na definição do número de comprimidos por cartela ou dos materiais utilizados nas embalagens.
“Embora os medicamentos, em muitos casos, salvem vidas e tenham ampliado a longevidade e o bem-estar da população, seu uso nem sempre é apropriado, tanto que programas de adequação de prescrições vêm sendo desenvolvidos”, explicou a Dra. Giovanna. Segundo ela, ferramentas que auxiliem na escolha de medicamentos com menor impacto ambiental, sem comprometer eficácia e segurança, seriam úteis para os prescritores.
Por outro lado, a especialista ressaltou que esses instrumentos, isoladamente, não são suficientes. É necessário também que as pessoas utilizem as terapias farmacológicas de forma mais consciente. Isso implica uma mudança de mentalidade, ainda muito centrada na cultura do medicamento. “A população, da infância à velhice, deve ser orientada quanto ao uso e descarte, considerando também seus aspectos ambientais”, afirmou a Dra. Giovanna, lembrando que a Itália está entre os países europeus com maior consumo de diversos fármacos, entre eles anti-inflamatórios.
Por: Cristina Ferrario em Medscape

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