Duas
pesquisas em andamento na Universidade de São Paulo (USP) avançam o uso da
terapia celular, com diferentes abordagens, para o tratamento do diabetes tipo
1 – também conhecido como diabetes infanto-juvenil ou insulinodependente.
Os
resultados mais recentes das investigações foram apresentados durante o 7º
Congresso Brasileiro de Células-Tronco e Terapia Celular.
No Centro de Terapia Celular (CTC) – um Centro de
Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da Fapesp na Faculdade de Medicina de
Ribeirão Preto (FMRP-USP) – a estratégia é interromper o processo de destruição
do pâncreas que ocorre em portadores de diabetes tipo 1 por meio de um transplante
de células-tronco hematopoiéticas retiradas da medula óssea do próprio
paciente.
A técnica
foi idealizada pelo imunologista Julio Voltarelli, que morreu em março de 2012.
A pesquisa continua sob a coordenação de Maria Carolina de Oliveira Rodrigues e
Belinda Pinto Simões. Também colabora o endocrinologista Carlos Eduardo Couri.
“Diabetes
tipo 1 é uma doença autoimune: o próprio sistema imunológico do paciente ataca
as células produtoras de insulina no pâncreas. Quando os sintomas começam a
aparecer, é sinal que aproximadamente 80% das células já foram danificadas”,
explicou Rodrigues.
Se o
processo de destruição for interrompido nesse ponto e as células restantes
forem preservadas, segundo a pesquisadora, é possível que o paciente consiga se
livrar da dependência de insulina ou pelo menos diminuir as doses.
“Não
falamos em cura, mas em facilitar o controle da doença e evitar complicações
crônicas do diabetes, como retinopatia, nefropatia e neuropatia”, disse
Rodrigues.
Com esse
objetivo, foi iniciado em 2004 um primeiro protocolo experimental com 25
pacientes. Eles passaram por um procedimento para coletar e isolar
células-tronco hematopoiéticas da medula óssea, que foram congeladas. Em
seguida, foram submetidos a uma quimioterapia agressiva para destruir o que
restava da medula e de todas as células do sangue.
“O
objetivo é zerar o sistema imunológico, fazendo com que ele pare de agredir o
pâncreas. Em seguida, infundimos as células-tronco congeladas para que elas
produzam uma nova medula e novas células sanguíneas”, disse Rodrigues.
De acordo
com dados apresentados pela pesquisadora durante o congresso, três dos 25
pacientes permanecem até hoje livres de insulina. Outros 18 tiveram de voltar a
tomar o hormônio após um período que variou entre seis meses e cinco anos, mas
recebem atualmente doses menores do que antes do tratamento.
Outros
quatro pacientes não conseguiram se livrar da insulina e nem reduzir a dose.
“Três deles tinham histórico de cetoacidose, uma complicação comum em pacientes
com estágio avançado da doença. Provavelmente, esses voluntários que não
reagiram ao tratamento já não tinham mais células produtoras de insulina para
serem salvas”, contou Rodrigues.
Com base
nos dados preliminares do primeiro experimento, a equipe iniciou um novo
protocolo em 2010. “As análises indicaram que a quimioterapia não foi forte o
suficiente para destruir todas as células sanguíneas em alguns pacientes, então
estamos testando um tratamento ainda mais agressivo”, disse.
Até o
momento, apenas dois voluntários foram submetidos à quimioterapia e ao
transplante.
Paralelamente,
em outro protocolo experimental iniciado em 2008, os pesquisadores do CTC
tentaram modular o sistema imunológico de oito pacientes diabéticos por meio de
aplicações de células mesenquimais.
“Essas
células estão presentes em praticamente todos os órgãos do corpo humano e
auxiliam no suporte dos tecidos, ajudam na nutrição e produzem fatores de
crescimento. Nós as retiramos da medula óssea apenas para facilitar a coleta”,
disse Rodrigues.
Nesse
caso, as células mesenquimais são retiradas de um parente do paciente
diabético. A expectativa dos cientistas é que elas consigam combater a
inflamação no pâncreas e ajudar na regeneração do órgão.
“Existe
ainda uma terceira hipótese, menos provável, de que as células mesenquimais
seriam capazes de migrar e de se diferenciar em células do pâncreas produtoras
de insulina. Isso ainda precisa ser estudado”, disse.
A
resposta, no entanto, não foi animadora nos primeiros pacientes tratados e a
equipe pretende iniciar um novo experimento em 2013. “A ideia é aplicar
quantidades maiores de células mesenquimais. Como é um tratamento de baixa
toxicidade e não envolve quimioterapia, poderemos testar em pacientes entre 5 e
35 anos”, disse Rodrigues.
Cápsula protetora
No Núcleo
de Terapia Celular e Molecular (Nucel), coordenado pela professora Mari Cleide
Sogayar e vinculado ao Instituto de Química e à Faculdade de Medicina da USP, a
estratégia é encapsular as ilhotas pancreáticas – conjuntos de células
produtoras de insulina – com um material biocompatível capaz de evitar a
rejeição após ser aplicado no organismo do diabético.
“O método
tem funcionado muito bem nos testes com animais. Implantamos ilhotas de ratos
em camundongos para provar que a cápsula é mesmo capaz de evitar a destruição
das células pelo sistema imunológico”, disse Sogayar.
As
cápsulas contendo ilhotas de rato são implantadas no peritônio, membrana que
reveste a parte interna da cavidade abdominal e recobre órgãos como o estômago
e intestino. “Evitamos mexer com o pâncreas, pois ele é muito sensível e se
inflama com facilidade. As ilhotas passam a produzir insulina em outra região”,
explicou.
Após o
tratamento, os camundongos diabéticos livraram-se completamente da insulina,
segundo Sogayar. “Depois de 250 dias, retiramos as cápsulas dos animais por
meio de uma lavagem do peritônio e conseguimos mostrar que as ilhotas estavam
intactas. Os camundongos, por outro lado, voltaram a ficar diabéticos”, disse.
Como um
camundongo vive aproximadamente um ano, é possível afirmar que o tratamento
mostrou eficácia por quase toda a vida do roedor. “Mas em humanos, se for
necessário, as cápsulas podem ser substituídas depois de algum tempo”, disse a
pesquisadora.
Para
facilitar esse procedimento, a equipe do Nucel trabalha, em colaboração com a
empresa CellProtect (spin-off do Nucel), no desenvolvimento de um
dispositivo, provavelmente subcutâneo, que armazenaria as cápsulas com as
ilhotas e funcionaria como um pâncreas artificial.
“Um tubo
ficaria para fora da pele e facilitaria a substituição das cápsulas, quando
necessário. Mas primeiro precisamos descobrir como manter a irrigação sanguínea
no local. Uma possibilidade seria usar fatores peptídicos como o VEGF (vascular
endothelial growth factor) recombinante, que já é produzido pelo Nucel”,
disse Sogayar.
Embora a
ideia de encapsular as ilhotas tenha sido desenvolvida em pesquisas
internacionais, a equipe coordenada por Sogayar conseguiu aperfeiçoar o método
e criou um novo material biocompatível contendo uma proteína chamada laminina,
que foi patenteado com o nome de Bioprotect.
“A grande
vantagem em relação ao transplante de ilhotas, feito com células de um doador
humano cadáver para o paciente diabético tipo 1, é que as cápsulas dispensam o
uso de drogas imunossupressoras, que possuem efeitos colaterais importantes.
Além disso, há poucos doadores de órgãos”, disse Sogayar.
“No
futuro, acrescentou, a ideia é transplantar cápsulas contendo células-tronco
diferenciadas em células produtoras de insulina ou, até mesmo, ilhotas de
porcos em humanos”, disse Sogayar.
Por: Karina Toledo - Fapesp