Bromelina
Um pedacinho de abacaxi na panela, e a carne fica
macia.
Quem faz isso é a enzima bromelina, presente na
fruta, que é levada às mesas e que muitos sequer suspeitam de sua ação.
Da mesma família do abacaxi, o curauá é uma planta
originária da Amazônia que acaba de ser motivo de uma ampla investigação da
pesquisadora Juliana Ferrari Ferreira, da Faculdade de Engenharia Química da
Unicamp.
A pesquisadora comprovou que o curauá também possui
teores significativos da bromelina e demonstrou que, graças aos seus níveis de
purificação, é possível incorporar o composto em cremes, a loções e géis
anti-inflamatórios.
Juliana mostrou em seu estudo que a planta possui
atividade enzimática, podendo ser purificada para ser comercializada pela
indústria farmacêutica.
Mais do que fibra
A fibra do curauá é largamente usada pela indústria
automobilística, substituindo a fibra de vidro nos painéis dos carros, e pela indústria têxtil, devido
à sua resistência, maciez e peso reduzido.
A planta se assemelha a um abacaxi, por isso
popularmente é tratada como "abacaxizinho".
O processamento da planta envolve uma moagem, como
a da cana-de-açúcar.
Mas o resíduo em geral é descartado, por se
entender que seria apenas refugo.
"Ficou claro que estamos jogando fora algo de
valor, sendo que atualmente apenas o abacaxi é visto como fonte desta
enzima", afirma. "Da fibra do curauá, sai uma mucilagem de alto valor
protéico oferecida aos animais. E o resíduo líquido contém a bromelina",
explica Juliana.
Aproveitamento do resíduo do curauá
Um detalhe interessante da pesquisa é que ela
ressalta o aproveitamento de um resíduo da planta, não afetando suas outras
utilizações.
Isto porque é difícil saber o momento de fazer a
extração da bromelina do abacaxi.
Quando a fruta está nova demais, ela não tem
bromelina, ou a sua quantidade é mínima. Já quando está muito madura, a sua
quantidade pode cair muito.
Deste modo, é preciso obtê-la na época exata da
maturação, "sendo portanto vantajoso retirar bromelina da casca e do
talo", explica.
Apesar do curauá ter menores quantidades de
bromelina, como ele é descartado, acaba tendo um custo-benefício maior.
"O setor industrial precisa saber que está
jogando fora um resíduo rico em propriedades e em aplicações", adverte.
Com alguns quilos de resíduos produz-se a enzima, a
qual é liofilizada (embora sendo uma substância líquida) e vendida por um preço
elevado, segundo a pesquisadora.
Curauá
O curauá (Ananas erectifolius L. SMITH) é
uma bromélia característica da Amazônia paraense, que cresce em clima úmido e
muito quente, chegando à altura de 1,5 metro.
Ela está mais concentrada na região de Santarém,
onde existe em grande abundância e, mesmo assim, já não está conseguindo mais
suprir a demanda crescente por tanta fibra. A planta é rara no Sul e no
Sudeste.
A fibra extraída de suas folhas é muito resistente,
macia, leve e reciclável, permitindo
composições para diversos usos na indústria. Apresentada à indústria na década
de 1990, é atualmente cotada como substituta da fibra de vidro em peças
automobilísticas e como composto de vigas resistentes a terremotos.
A planta pré-colombiana, da família das
bromeliáceas, é também utilizada na fabricação de cordas, sacos, utensílios
domésticos e artesanato. É quatro vezes mais resistente que a fibra do sisal e
dez vezes mais resistente que a fibra de vidro.
O seu cultivo não provoca a degradação da mata
nativa, contribui para revitalizar terras desmatadas, não é exigente a
fertilizantes químicos e pode ser consorciada com culturas alimentares,
representando uma fonte de renda e garantindo segurança alimentar ao agricultor
da região amazônica.
Fonte:
Jornal da Unicamp
