O Profissional Farmacêutico pode evitar casos de intoxicação por
medicamentos, detectando problemas em receitas médicas e orientando sobre a
forma correta de uso.
O medicamento é o
principal agente tóxico no Brasil. Todo medicamento oferece riscos a quem o
consome. O limite entre o terapêutico e o tóxico está na dose. As intoxicações
devem ser separadas por circunstâncias: acidental ou intencional.
Dados do Sistema Nacional
de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox), da Fundação Oswaldo Cruz
(Fiocruz), revelam que cerca de 27 mil casos de intoxicação por medicamento são
registrados todos os anos no Pais, sendo os maiores índices os de acidente
individual (cerca de 9 mil) e tentativa de suicídio (11 mil casos
aproximadamente).
A coordenadora do
Sinitox, Dra. Rosany Bochner, explica que a apuração destes dados é difícil de
ser feita porque só são computados quando há atendimento hospitalar ou quando o
cidadão recorre aos centros de informação e assistência toxicológicas e, na
maioria das vezes, o indivíduo não relata o que de fato aconteceu, por
vergonha.
A farmacêutica e
coordenadora da Farmácia Escola da Universidade de São Paulo (USP), Maria
Aparecida Nicoletti, acrescenta que dificilmente se consegue distinguir se a
intoxicação foi intencional ou acidental, e as pessoas acabam resolvendo o
problema em casa, sem recorrer aos atendimentos específicos, o que faz com que
o painel estatístico seja falho.
A automedicação preocupa
entidades e profissionais da saúde, sobretudo quando existem no mercado
medicamentos isentos de prescrição (MIPs), à disposição e escolha do
consumidor, mas Rosany afirma que esta prática, comum entre os brasileiros,
apresenta um percentual pequeno no momento do acidente. "Os MIPs são os
menos causadores de intoxicação. A RDC 44/09, publicada pela Agência Nacional
de Vigilância Sanitária (Anvisa), em 2009, é uma ideia interessante, no sentido
de aproximar o consumidor do farmacêutico: 'vou tomar um analgésico - qual é o
melhor?'. Apesar de ser isento de prescrição, não é isento de orientação ou
riscos, mas o grande problema dos casos de intoxicação não é esse, mas sim os
casos de intoxicação por prescrição errada ou por uso indiscriminado de medicamentos
controlados." Segundo informa a executiva, "tirar os MIPs do alcance
direto do consumidor pode minimizar, mas não resolve".
A executiva lembra que o
MIP traz economia ao País, porque as pessoas não precisam ir ao médico. O
problema é que há o esquecimento de se contabilizar o quanto é comprado a mais.
"Os medicamentos acabam vencendo e são jogados de qualquer forma no lixo,
e custa muito caro destruir tudo."
O consumo errado ou
exagerado de medicamentos pode acontecer também por indicação familiar ou de
amigos. Maria Aparecida lembra que a mídia também é grande influenciadora, pois
coloca artistas e atletas sugerindo o uso de determinados produtos. Há ainda
casos em que as próprias farmácias do tipo leve 4 pague 3. “O usuário é muito
sugestionado. Ele se esquece de que aquele medicamento foi usado e fez bem para
um individuo que não é ele.”
O vice-presidente do
Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos de São Paulo (Sindusfarma),
Nelson Mussolini, é enfático, descorda: “As propagandas, normalmente, são de
uso continuo, não de MIPs, já que com o MIP existe a guerra de preços. A pessoa
vai levar aquele em que confia mais. Não é porque artistas famosos dizem usar
que vão sair comprando; Ninguém toma MIP para prevenir alguma coisa que ainda
não aconteceu. A propaganda influencia sim um comprador, quando este comprador
tem um problema”, pontua.
Mussolini afirma que
ninguém compra medicamento se não precisa dele. "Uma pessoa só compra um
antiácido, por exemplo, se está com azia ou queimação. Achar que no
supermercado a população compra medicamento para fazer estoque é um equívoco. O
consumo irracional de medicamentos não é tão exagerado como se fala, de forma
que justifique os casos de intoxicação. Claro que há os hipocondríacos, sempre
existe uma exceção para confirmar a regra."
De acordo com o
executivo, quem se intoxica quer se intoxicar, toma de forma consciente, para
tentar o suicídio, ou erra e toma em horários equivocados e em doses alteradas,
mas na maioria dos casos esses produtos não são os MIPs e sim medicamentos
controlados, de prescrição. "Este mito está caindo, ninguém se intoxica
sem querer, só as crianças que têm livre acesso aos medicamentos por
negligência de alguma pessoa."
O executivo diz que a
RDC 44/09 trouxe um indivíduo a mais influenciando na compra do medicamento, já
que nem sempre a indicação é feita por um farmacêutico, mas por outro
profissional. "A decisão da compra está nas mãos de um interventor, que
acaba oferecendo um produto mais rentável para a comissão dele. A essência é a
participação da população; quando o produto vai para atrás do balcão, perde-se
isso." Ele lembra que os MIPs têm efeitos colaterais baixos, causam
pequenos problemas de saúde, são medicamentos antigos que por anos provaram não
apresentar riscos. "No Rio de Janeiro e em São Paulo, puderam voltar a
ficar nas gôndolas de livre circulação. A Anvisa ainda não se pronunciou, mas
isso acontecerá em breve, com uma possível revisão ou alteração dessa
RDC."
CONTROLE E ATENDIMENTO
A população vai ao
médico e sai com dúvidas. Por se sentir intimidada, não consegue esclarecer
tudo, não conta se faz uso de plantas medicinais, de tratamentos alternativos,
ou não conta se está usando outros medicamentos no momento; assim, as possíveis
interações não são identificadas. "Neste ponto, a posição do profissional
farmacêutico deverá ser mais exigida. Com a revisão de receitas, muitos
problemas são minimizados em um único atendimento. O profissional deve informar
se um medicamento pode ser tomado com outro, se não é indicado para determinada
faixa etária, e assim por diante", diz a Dra. Rosany, do Sinitox.
Maria Aparecida
Nicoletti, da USP, acredita que a maioria dos casos de intoxicação ou
ineficácia nos tratamentos acontece por falta de conhecimento. Segundo ela, a
população brasileira não conhece o seu próprio corpo. Falta informação básica
em relação à saúde. "As pessoas não têm a menor noção de uso de
medicamentos, não sabem nem identificar a via de administração correta, o que
gera problema. Os farmacêuticos devem ser educadores, caso contrário não
conseguiremos melhorar os resultados de atendimento da população e
administração de medicamentos." Ela lembra de um fato curioso: "certa
vez, um paciente não conseguia engolir o comprimido, ele tirou todos da cartela,
triturou, misturou com água e tomou como se fosse um xarope. Este problema
poderia ter sido resolvido com uma substituição de fórmula farmacêutica de
sólida para líquida".
A especialista conta
ainda que quando não há a orientação de uso, a população erra. "Produtos destinados
a banhos de assento, por exemplo, já foram consumidos via oral, como se fossem
chá. Óvulos vaginais foram cozidos antes do uso, pois as pessoas o associaram a
ovo de galinha (alimento). Sprays para lesões musculares foram aplicados na
garganta. Cápsulas são abertas e jogadas em cima da comida, como se fossem
temperos. Isso tudo prova a falta de conhecimento da anatomia humana e pode
causar danos irreversíveis."
Os profissionais devem
ter a percepção da linguagem mais adequada para conversar com o público, já que
grande parte da população brasileira não é alfabetizada. "É importante que
a informação fique sedimentada na mente do usuário; ele não pode sair pior do
que entrou", esclarece Maria Aparecida. A farmacêutica diz que o paciente
não tem de ser sempre paciente, ele precisa ser ativo. "A recuperação da
saúde envolve múltiplas pessoas e o paciente é uma dessas pessoas. O
farmacêutico deve inseri-lo como participante ativo desse processo."
A farmacêutica lembra
que hoje o analfabetismo atinge 14,1 milhões de brasileiros com 15 anos ou
mais, o que corresponde a 9,7% da população total do Brasil, segundo dados do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O alfabetismo funcional
(pessoa não conseguiu terminar o ensino fundamental com 15 anos ou mais) é de
20,3% da população total.
"Somando as duas
taxas, obtém-se a porcentagem de 30%, ou seja, os farmacêuticos lidam com esta
população, que concorda com tudo o que é falado, mas que na verdade pode não
ter entendido grande parte do que ouviu. O paciente é um todo e não somente um
usuário de medicamento."
Segundo informa a
profissional da USP, o farmacêutico é capaz de identificar quando o paciente
não aderiu ao tratamento ou quando não o fez da forma recomendada. "Os
usuários não têm condições de identificar que algumas reações são decorrentes
de medicamentos. Dos antibióticos prescritos, por exemplo, 50% são indicados
erroneamente. Se o médico falha, o farmacêutico pode detectar e corrigir."
Mussolini afirma que o
farmacêutico é um auxiliar extremamente importante, mas ele não sabe todas as
dúvidas que a população tem. "Se questionar os consumidores, tem condições
para orientação, mas não existe orientação proativa, não dá para sair
explicando tudo para todo mundo."
CRIANÇAS X MEDICAMENTOS
As crianças imitam
absolutamente tudo o que seus pais fazem. Se o medicamento fica em um local de
fácil acesso, não há dúvidas de que farão, ao menos, o manuseio do produto,
quando não estiverem sendo observadas. Maria Aparecida, da USP, diz que as
crianças podem tomar o medicamento como confeito ou refrigerante, fazendo
analogia com a comida. "Medicamento é diferente de alimento e as crianças
não podem ter acesso facilitado. Quando ficarem sozinhas, vão se lembrar e
tomar o produto."
Outro problema comum apresentado
nas intoxicações medicamentosas em crianças é a forma errada de uso. Muitas
vezes as crianças estão tomando mais de um produto ao mesmo tempo e a mãe troca
os horários ou as doses, ou ainda, no caso dos antibióticos, não segue à risca
os procedimentos de uso. Maria Aparecida explica que tudo vem descrito na
especialidade. As pessoas acreditam que em determinadas apresentações o efeito
desejado seja mais rápido se, por exemplo, tomar dois comprimidos de uma vez,
ou trocar a apresentação sólida para líquida por conta própria." Ela
comenta que, em alguns casos, quando a criança começa a melhorar, a mãe para de
oferecer o medicamento e o distribui na vizinhança. Isso gera acréscimo em
termos de gasto público, já que o problema não é resolvido e o mesmo paciente
retorna, mais de uma vez, ao atendimento médico.
Caso os pais cheguem ao
ponto de venda com o filho apresentando algum sintoma de intoxicação, o
farmacêutico deve encaminhá-los ao pronto-socorro local para que a causa seja
identificada e os primeiros procedimentos sejam feitos, como a lavagem
gástrica.
Quando os pais têm a
segurança da orientação profissional, tomam a decisão mais assertiva.
O coordenador do curso
de Farmácia do Centro Universitário São Camilo-SP, Alexsandro Macedo Silva, recomenda
que os pais guardem os medicamentos fora do alcance das crianças e adquiram
embalagem com sistemas que dificultam o acesso ao conteúdo por elas. "Os
pais devem orientar os filhos que o medicamento é um produto que deve ser
tomado apenas quando necessário."
Ele ressalta que o uso
incorreto de medicamentos pode deixar sequelas e causar morte. Dependendo da
substância, pode-se ter alteração de algum tecido ou órgão que comprometa seu
funcionamento.
O professor lembra que
as farmácias podem recolher o medicamento para descarte. Assim, evita-se que
fique disponível na casa do paciente para ser usado de forma incorreta. Além de
promover campanhas de automedicação consciente, com folhetos explicativos sobre
medicamentos e os seus riscos, as farmácias fazem a promoção de saúde por meio
de medicamentos, o uso racional deles, os problemas de intoxicação e as
principais interações medicamentosas. "Podem-se realizar, também,
palestras na comunidade de forma a esclarecer as principais dúvidas dos
pacientes."
Por: Lígia Favoretto - Guia
da Farmácia
