domingo, 25 de março de 2012

Óleo de coco para emagrecer, não passa de bobagem

Na forma líquida ou na de pílula, cada vez mais pessoas usam suplementos na tentativa de perder peso. Com esse objetivo, só estão perdendo dinheiro.

O óleo de coco, seja na forma líquida ou na de pílula, é o emagrecedor da moda. Na forma de pílula, é ingerido duas vezes ao dia. Líquido, também pode ser ingerido ou usado no preparo de alimentos. Na Mundo Verde, uma rede de 205 lojas de produtos naturais espalhadas pelo Brasil, as vendas aumentaram 500% nos últimos 4 meses, mais do que qualquer outro produto. O frenesi não deve continuar por muito tempo. Vários alimentos, bebidas, sementes e produtos naturais caíram no esquecimento pela ausência de estudos científicos e resultados práticos que comprovassem sua eficácia. O caminho dessa nova moda parece ser o mesmo.
O primeiro motivo é que nada — benefícios ou prejuízos — foi provado em relação ao óleo, o que basta para impedir que médicos responsáveis recomendem a substância como emagrecedor. Segundo Gláucia Carneiro, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e do ambulatório de obesidade da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), as evidências científicas são insuficientes para que as pessoas contem com o óleo de coco para emagrecer.
Não há mal nenhum em usá-lo, em sua forma líquida, como substituto do óleo de origem animal ou mesmo do óleo de soja na preparação de alimentos. Ele faz parte do grupo de gorduras vegetais, mais saudável do que as animais. No entanto, é rico em gorduras saturadas. O azeite de oliva, por exemplo, tem gorduras insaturadas. Para cozinhar, tudo bem. Para emagrecer, fora de questão.

Sem comprovação

As pesquisas que encontraram tanto benefícios como malefícios no alimento não foram capazes de explicar o mecanismo envolvido. Há quem atribua ao óleo de coco a condição de um termogênico, ou seja, algo capaz de aumentar a queima de calorias no corpo. Substâncias termogênicas estão presentes no café ou no chá verde, por exemplo, mas também podem ser encontradas em suplementos alimentares. Mas, de novo, nada foi comprovado.     

Pesquisadores brasileiros da Universidade de Alagoas, em Maceió, publicaram no periódico Lipids, em 2009, um estudo sobre óleo de coco. Nele, 40 mulheres obesas de 20 a 40 anos seguiram, por 12 semanas, uma dieta com restrição calórica (menos consumo de carboidratos, mais ingestão de proteínas e fibras e semelhante consumo de gordura) e praticaram 50 minutos de caminhadas todos os dias. Metade delas ingeriu suplementos óleo de soja e as outras, de óleo de coco. Antes do início do estudo, as participantes apresentavam níveis de colesterol, índice de massa corporal (IMC) e medidas abdominais parecidas. Ao final da pesquisa, aquelas que consumiram óleo de coco apresentaram maiores níveis de HDL, o colesterol 'bom', e menores de LDL, o colesterol 'ruim', enquanto o outro grupo teve os dois tipos de colesterol aumentados. A redução do IMC foi observada nos dois grupos, embora somente o grupo do óleo de coco tenha reduzido a circunferência abdominal. 

Os pesquisadores concluíram que dieta com suplemento de óleo de coco não aumenta os níveis de gordura no sangue e reduz medidas abdominais em obesos. Entretanto, eles também observaram que o suplemento pode induzir uma resistência à insulina. Os cientistas, no entanto, concluíram que outros estudos eram necessários para avaliar os efeitos do alimento a longo prazo.

Ilusão

Por causa de resultados controversos como esses, que indicam tanto benefícios quanto malefícios do óleo de coco, sem confirmar nenhum dado e estabelecendo a necessidade de novos estudos, os médicos acreditam que incluir óleo de coco na dieta como um suplemento alimentar não é seguro. "Nenhum estudo feito sobre óleo de coco tem qualidade que garanta segurança dos resultados, além de não ter sido publicado em revistas médicas de excelência", afirma Cíntia Cercato, endocrinologista da SBEM e do Hospital das Clínicas.    
O endocrinologista Alfredo Halpern, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e autor do livro Pontos Para o Gordo, é mais taxativo. "O óleo de coco é uma grande enganação. É rico em gorduras saturadas, ou seja, em excesso faz mal, e não tem nenhuma dessas propriedades sobre as quais as pessoas vêm falando. É uma gordura como outra qualquer: pode ser consumida, mas também é capaz de engordar o indivíduo", afirma.
O óleo de coco não precisa ser exterminado. Ele pode substituir outras gorduras, como manteiga, óleo de girassol e azeite, na preparação de alimentos, desde que haja bom senso. "A gordura não é proibida. O ideal é que ela represente, no máximo, 30% do total de calorias que consumimos ao dia, dependendo do tamanho, do peso e do estilo de vida do indivíduo. As gorduras saturadas, porém, não devem ultrapassar 7%”, diz o endocrinologista da SBEM e chefe do grupo de obesidade do Hospital as Clínicas da Faculdade de Medicina da USP Márcio Mancini.
Mancini, porém, reafirma: para emagrecer, o óleo de coco é uma bobagem. "Quem compra essa ideia joga dinheiro fora, se ilude com um caminho fácil para a perda de peso e acaba se decepcionando."

 

Saiba mais


COLESTEROL
O colesterol é importante para o organismo para sintetizar vitaminas e hormônios, mas eles não circulam livremente pelo sangue. Para fazer isso, é preciso que se juntem às lipoproteínas, como a  HDL (sigla para high density lipoproteins, ou lipoproteínas de alta densidade) e a LDL (low density lipoprotein, lipoproteínas de baixa densidade). A HDL impede que a LDL forme placas de gordura nas artérias que dão origem à aterosclerose, diminuindo ou obstruindo o fluxo sanguíneo, provocando infartos ou derrames.

ÁCIDO GRAXOS   
São as moléculas que compõem a gordura, que pode ser encontrada na natureza em formato sólido (gordura) ou líquido (óleos). São formados por cadeias de carbono, que se ligam a moléculas de hidrogênios. Quanto mais ligações na molécula, mais saturada é a gordura.

GORDURA SATURADA  
Aumenta o LDL no organismo, que se deposita nas artérias e eleva o risco de problemas cardíacos. Pode ser encontrada em frituras, carne vermelha e em laticínios em geral.

GORDURA INSATURADA         
Diferente das saturadas, ajuda a reduzir os triglicerídeos, um tipo de gordura que em alta concentração é prejudicial, e a pressão arterial. Pode ser monoinsaturada ou poli-insaturada. Essa última pode ser, por exemplo, Ômega 3 e 6, que são os chamados ácidos graxos essenciais e são as gorduras encontradas em peixes, linhaça, castanhas e azeite.

Por: Vivian Carrer Elias - http://veja.abril.com.br

Aspirina pode reduzir risco de metástase e morte por câncer

 Efeitos da aspirina

No final de 2010, a equipe do Dr. Peter Rothwell, da Universidade de Oxford, publicou um estudo que sugeria que a ingestão de uma aspirina por dia reduzia o risco de morte por câncer.
Naquele trabalho, a equipe se concentrou sobretudo sobre o câncer de intestino, e seus resultados mostravam que a aspirina deveria ser tomada por longos períodos, que variavam de oito a 20 anos.
Agora, em um novo estudo, também publicado na revista Lancet, eles argumentam que os benefícios podem vir bem antes - de três a cinco anos.

Tratamento adicional

Os pesquisadores destacam que não se trata de medidas preventivas contra o câncer, o que exigirá novos estudos, mas como um tratamento adicional para pessoas que já estejam com a doença.
O estudo identificou benefícios mais relevantes sobretudo em relação aos eventuais efeitos da aspirina sobre a metástase, o espalhamento de um tumor pelo restante do corpo.
"Nós não estamos no estágio de recomendar o uso da aspirina para todas as pessoas, mas os protocolos médicos sobre o uso da aspirina pela população saudável de meia-idade certamente precisam ser atualizados, a fim de levar em conta os efeitos [da aspirina] sobre o risco e a progressão do câncer, assim como o risco de ataques cardíacos e derrames," disse Rothwell.

Benefícios da aspirina

O grupo não fez experimentos diretos, mas uma revisão dos experimentos realizados por cientistas de todo o mundo - foram revisados 51 estudos, envolvendo mais de 77 mil pacientes.
O levantamento foi subdividido em três artigos agora publicados.
No primeiro, a ingestão diária de aspirina detectou-se uma redução no risco de morte por câncer de 15%. Essa redução aumentou ao longo do tempo, chegando a 37% entre aqueles que tomaram aspirina durante 5 anos ou mais.
No segundo artigo, os cientistas relatam os efeitos da ingestão de aspirina sobre a metástase.
Foi identificada uma redução do risco do espalhamento do câncer de 36% em um período de 6,5 anos.
O terceiro artigo cobre estudos anteriores do tipo observacional, em vez de testes onde a ingestão do medicamento é controlada. Os resultados corroboram os resultados dos outros dois artigos.

Tomar ou não tomar aspirina

Alguns estudos associam a aspirina à redução dos riscos de ataques cardíacos ou de derrames entre as pessoas nos grupos de risco. Outros, porém, questionam o uso da aspirina na prevenção de ataques cardíacos.
Os críticos da aspirina como medicação preventiva ressaltam que os efeitos de proteção contra doenças cardiovasculares são pequenos entre adultos saudáveis. E, segundo eles, há documentação de que a prática aumenta o risco de sangramentos no estômago e no intestino.
Uma pesquisa publicada em 2009 concluiu que o uso regular da aspirina pode fazer mais mal do que bem.

Redação do Diário da Saúde

Planta tem ação anti-inflamatória em peles sensíveis

Velha conhecida da medicina popular, a planta Physalis angulata demonstrou em testes clínicos, potencial para se tornar uma grande aliada de pessoas com pele sensível ou intolerante a cosméticos, que podem desenvolver dermatites.
Em pesquisa realizada pela empresa Chemyunion Química – fabricante de matérias-primas para a indústria cosmética e farmacêutica – o extrato concentrado do vegetal mostrou ação anti-inflamatória equivalente à da hidrocortisona, mas sem os efeitos adversos dessa última.
Enquanto o uso prolongado de corticoides tópicos prejudica a formação de colágeno e torna a pele mais fina e suscetível a lesões, os ativos da P. angulata estimulam a produção dessa proteína e a regeneração celular. “Mesmo pessoas com pele normal podem se beneficiar do efeito antienvelhecimento do extrato”, disse Márcio Antônio Polezel, diretor industrial da Chemyunion.
Também conhecida como camapu, juá, balãozinho ou saco de bode, a P. angulata está presente no Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste brasileiro, mas se concentra principalmente na Amazônia. Há muito tempo é usada em chás e infusões no combate à asma, hepatite, malária, reumatismo e também como diurético e analgésico.
Nos anos 1970, cientistas descobriram que substâncias existentes na planta, batizadas de fisalinas, possuíam ação anti-inflamatória. Estudos posteriores sugeriram que as fisalinas poderiam também ser uma arma contra o câncer, a tuberculose e a doença de Chagas.
Com apoio do Programa FAPESP Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), a Chemyunion começou a investigar em 2006 plantas da biodiversidade que tinham efeito semelhante ao dos corticoides e viu na P. angulata uma boa candidata.
“No início achávamos que a ação anti-inflamatória vinha somente das fisalinas, mas descobrimos que no caule e nas folhas da planta – partes usadas na pesquisa – a quantidade dessa substância é pequena. O benefício é proporcionado por fitoesterois, flavonoides e diversas outras substâncias presentes no vegetal”, disse Polezel.
Para extrair os princípios ativos das plantas, a indústria cosmética geralmente recorre a solventes como água, álcool etílico, propilenoglicol ou butilenoglicol. “O problema é que essas substâncias permanecem no extrato final e podem causar efeitos indesejados. O álcool, por exemplo, resseca a pele”, disse.
Na tentativa de obter uma matéria-prima pura e com concentração até 10 mil vezes maior de substâncias ativas, a Chemyunion recorreu a um método pouco comum no meio cosmético: a extração com dióxido de carbono (CO2) supercrítico.
“Nós submetemos o CO2 a uma pressão 500 vezes maior que a da atmosfera. O gás entra em um estado chamado supercrítico, intermediário entre o líquido e o gasoso. É então injetado nos reatores de extração, penetra nas células do vegetal e retira os ativos. Quando a pressão é reduzida a 70 atmosferas, o CO2 retorna ao estado gasoso e se separa do extrato, que cai em um coletor”, explicou Polezel.
O processo não ultrapassa a temperatura de 50 ºC, o que garante a integridade das moléculas. Além disso, pode ser considerado ecologicamente correto, uma vez que o CO2 é utilizado em ciclo fechado dentro do extrator.
O problema é o preço. Enquanto um extrato vegetal pode custar apenas R$ 4 o quilo, cada grama da matéria-prima superconcentrada pode chegar a R$ 170 reais ou até mais, dependendo dos ativos que se busca. “É no mínimo dez vezes mais cara, levando-se em conta a diferença de concentração. Mas não tem o efeito indesejável do solvente e permite dosar com precisão a concentração desejada dos ativos, de forma a se conseguir a eficácia que se busca, o que garante a eficácia”, explicou Polezel.

Superconcentrado

A empresa também desenvolveu um extrato hidroglicólico comum de P. angulata para comparar com o superconcentrado e com a hidrocortisona durante as pesquisas.
Os primeiros testes de eficácia e segurança foram feitos in vitro com culturas de células humanas. Em seguida, o efeito dos dois extratos vegetais e da hidrocortisona foi comparado em 33 voluntários entre 18 e 60 anos.
“Comprovamos que a P. angulata tem ação equivalente à de corticoides e demonstramos que o extrato superconcentrado é no mínimo 25% mais eficaz no combate à inflamação que a versão hidroglicólica, tendo-se como base o mesmo teor de ativos”, disse Gustavo Facchini, pesquisador do projeto.
Os dois tipos de extrato de P. angulata já foram lançados no mercado. O superconcentrado ganhou o nome de Physavie, e o hidroglicólico, de EcoPhysalis. Segundo a gerente de pesquisa e desenvolvimento da Chemyunion, Cecília Nogueira, cerca de dez empresas brasileiras e estrangeiras estão testando ou lançando cosméticos com esse ativo.
“O Physavie é um produto premium, para a indústria cosmética de primeira linha. É mais caro, mas vai resolver o problema de quem tem pele sensível em menos tempo, com menor quantidade e sem o risco de efeitos colaterais causados pelos extratos comuns contendo solventes”, disse Nogueira. 

Por Karina Toledo - Agência FAPESP 

Raios de ultrassom expulsam pedras nos rins sem dor

Pedras no espaço

Uma nova técnica para tratar pedras nos rins poderá superar as principais deficiências dos tratamentos atuais.
As pedras são detectadas com um avançado sistema de imageamento por ultrassom, baseado em um processo chamado "artefato cintilante".
Uma vez localizadas com precisão, as pedras são empurradas por um outro ultrassom altamente focalizado.
Os doutores Lawrence Crum e Michael Bailey, da Universidade de Washington, estão desenvolvendo a técnica para que ela possa ser usada até mesmo por astronautas no espaço, uma situação que exige tratamentos rápidos e seguros, e com equipamentos pequenos.

Artefato cintilante

Antes que a pedra possa ser empurrada para fora, ela precisa ser localizada. Os aparelhos comuns de ultrassom possuem um modo de imageamento em preto e branco, chamado modo B, que cria uma imagem da anatomia.
Mas esses aparelhos também têm um modo Doppler, que mostra o fluxo sanguíneo e o movimento do sangue no interior dos tecidos em cores.
No modo Doppler, as pedras nos rins aparecem não apenas coloridas, mas também piscando - daí o nome "artefato cintilante".
Ninguém sabe por que isso ocorre, mas os cientistas decidiram tirar proveito do fenômeno.
Estimativas indicam que os cálculos renais atingem 10% da população em algum momento de suas vidas.
Além de uma condição extremamente dolorosa e incapacitante, sua remoção nem sempre é simples, e o problema pode ser recorrente.
Com a nova técnica, o tratamento pode ser muito mais simples e incrivelmente rápido.

Raio de expulsão

Com as pedras localizadas, o operador pode selecionar uma por uma e disparar contra cada uma delas uma onda focalizada de ultrassom, movendo-a para a saída do rim.
A onda focalizada de ultrassom tem uma amplitude de meio milímetro, capaz de mover a pedra a uma velocidade de um centímetro por segundo.
"Nós agora podemos usar ondas de ultrassom, vindas diretamente através da pele, para empurrar pequenas pedras, ou pedaços de pedras, rumo à saída do rim, de forma que elas passem naturalmente, evitando as cirurgias," diz o Dr. Bailey.
Segundo os médicos, a nova técnica também poderá ser útil para a ablação de tumores e para interromper hemorragias internas.

Redação do Diário da Saúde

Os perigos das coisas enlatadas

Comidas e bebidas podem causar danos à saúde

Um estudo de pesquisadores da Universidade Harvard pode dar às pessoas mais razões para evitarem comidas ou bebidas enlatadas. Pessoas que usaram alimento em lata diariamente durante cinco dias tiveram níveis significativamente elevados (aumentos de mais de dez vezes) de bisfenol-A, ou BPA, uma substância que reveste a maior parte das latas.

Grande parte da pesquisa sobre BPA, um desarranjador do sistema endócrino que imita os hormônios do corpo, tem foco no uso de garrafas plásticas. A substância está ligada em alguns estudos à maior incidência de câncer, problemas cardíacos, diabetes e obesidade, e nos EUA há cada vez mais pressão para regular seu uso. A indústria de alimentos e bebidas considera que isto é um exagero.

O novo estudo, publicado esta semana no Journal of the American Medical Association, é o primeiro a medir as quantidades ingeridas quando as pessoas comem alimentos vindos diretamente de uma lata – no caso, sopa. Os aumentos de níveis de BPA que os pesquisadores registraram foram os mais altos do que em qualquer outro estudo.

“Não podemos dizer quais são as consequências, a partir de nossa pesquisa”, disse Karin Michels, professora-associada de epidemiologia na faculdade de medicina de Harvard. “Mas os níveis altos que encontramos foram surpreendentes. Nunca esperamos um aumento de mil por cento deles”.

Brasileiros desenvolvem fármaco inorgânico contra tuberculose

Nanocarregadores

Pesquisadores brasileiros estão desenvolvendo novos fármacos contra tuberculose, capazes de reduzir o tempo médio atual de tratamento, que é de seis meses.
Para isso, os cientistas utilizam carregadores, moléculas que levam os agentes do medicamento pelo organismo até o lugar de origem da doença.
Esses carregadores, também conhecidos como nanopartículas inteligentes, devido ao seu tamanho, são baseados em complexos organometálicos de rutênio.
Os experimentos em laboratório com proteínas in vitro e em pequenos animais foram concluídos com êxito.
Os estudos estão sendo realizados pelos professores Javier Ellena, do IFSC (Instituto de Física de São Carlos, da USP), Alzir Batista, do Departamento de Química da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e Clarice Queico Leite, da Faculdade de Farmácia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Araraquara.

Complexos organometálicos

Os pesquisadores procuram investigar as barreiras biológicas que devem ser ultrapassadas por medicamentos até seu alvo específico dentro do corpo, ou seja, os problemas de transporte que acabam por reduzir a eficácia do fármaco contra a doença.
"Para isso, utilizamos os chamados carregadores, que são moléculas maiores e mais flexíveis, com propriedades específicas que as permitem passar através de tecidos e levar os agentes do medicamento até o lugar de origem da doença, que no caso da tuberculose é uma enzima específica", conta o professor Javier.
Estas moléculas estão intimamente relacionadas à atividade de complexos organometálicos de rutênio.
"O corpo humano tem complexos organometálicos, mas em pouca quantidade", aponta o professor do IFSC. "Em grande quantidade, eles podem se ligar a algumas proteínas e danificá-las, causando intoxicação".
O mercúrio, que se encaixa nesta categoria de íons pesados, causa um grande número de intoxicações graves. Por esta razão, os pesquisadores trabalham com o rutênio, um complexo mais estável, mais tolerado pelo organismo humano (portanto menos perigoso) e muito mais bem estudado pela ciência.
"O principal diferencial entre o tratamento atual e este novo fármaco é este carregador, ou seja, temos um novo sistema de liberação dos agentes", esclarece Javier.
Os testes in vitro - aplicação do medicamento em proteínas isoladas em laboratório - já foram realizados com ótimos resultados, além dos testes in vivo, em pequenos animais.
O próximo passo é dar início a experimentos clínicos, em humanos, o que exige grandes preparativos e financiamentos, além de parcerias com empresas farmacêuticas responsáveis pela supervisão dos testes.
Mas uma das grandes superações do projeto foi a investigação da atuação do composto desenvolvido pelos pesquisadores sobre a enzima específica que é fonte da tuberculose no corpo humano.

Biossíntese

Os pesquisadores conseguiram entender melhor a atuação do fármaco dentro do corpo, o que é muito difícil em qualquer medicamento - a atuação dos compostos ocorre ao nível da biossíntese, na parede celular das bactérias.
Outra etapa consiste na caracterização e controle de qualidade de insumos farmacêuticos em estado sólido, ou seja, em forma de comprimidos. "Normalmente, quando se desenha um fármaco, costuma-se pensar em uma produção em pequena escala, mas para garantir que as maiores quantidades utilizadas em testes em laboratório tenham uma ação idêntica ao fármaco pensado originalmente, precisamos fazer uma análise físico-química e verificar se o processo resulta no mesmo produto, com as mesmas qualidades", explica Javier.
Segundo ele, a chave para o bom desenvolvimento da pesquisa foi a interdisciplinaridade e a colaboração de especialistas de diversas áreas. "Conseguimos, em conjunto, produzir um medicamento inorgânico contra a tuberculose", comemora. "Em colaboração, podemos obter resultados muito melhores do que aqueles produzidos sozinhos.".

Lei do mercado

Em países desenvolvidos, segundo o professor Batista, um fármaco leva em média quinze anos para ser disponibilizado no mercado.
O caso da tuberculose é ainda mais complexo, pois continuam a ser pouco atrativos, enquanto investimento, para empresas farmacêuticas internacionais, devido ao baixo poder econômico das populações atingidas.
O fármaco inovador, portanto, além de acenar para a possibilidade de um tratamento mais ágil, atuaria com maior eficiência, com menos efeitos colaterais e pode ser utilizado em conjunto com outros medicamentos, em uma terapia mista, como um coquetel.
Devido a estas otimistas perspectivas, Batista foi convidado para o conceituado Congresso Europeu de Química Inorgânica Biológica, que acontecerá em setembro na Espanha, para apresentar os resultados das pesquisas desta parceria.

Com informações do IFSC

segunda-feira, 19 de março de 2012

Os cânceres do sangue

O tecido sanguíneo pode ser afetado por uma gama de doenças agressivas em maior ou menor grau. Linfomas, leucemias e mielomas são as mais comuns.

O linfoma do tipo não-Hodgkin (como foi o caso do ator Reynaldo Gianecchini), é um dos cânceres mais frequentes na população adulta. Por ano, são diagnosticados 12 mil novos casos no Brasil e alguns especialistas estimam que uma em cada cinco pessoas, eventualmente, receberá a mesma notícia que Gianecchini. Já a leucemia, outro tipo de tumor de células sanguíneas, tem uma média de 9,5 mil novos casos anuais. Menos frequente em adultos (que representam entre um 1% e 2% dos portadores), é o câncer mais comum em crianças, principalmente em sua forma mais agressiva.          

Os médicos afirmam que, de forma geral, a detecção dos cânceres de sangue — exceto os mais nocivos, que levam seus hospedeiros a emergências hospitalares em questão de dias — ainda é tardia no país. São oito meses, em média, entre o primeiro sinal e o diagnóstico. “Para quem tem um câncer no sangue, isso é muito. Quem tem câncer tem pressa”, enfatiza Cármino Antônio Souza, hematologista da Unicamp e presidente da Associação Brasileira de Hematologia, Hematoterapia e Terapia Celular (ABHH). Parte da culpa, ele aponta, é da falta de conhecimento dos sintomas da doença, tanto por médicos plantonistas quanto pela população. “No primeiro sintoma, muitos correm ao pronto-socorro, que já não é o melhor lugar para ir. E lá, se um médico vê uma íngua na região do pescoço, ele não vai suspeitar de cara de um câncer, porque a chance de ser é realmente pequena. Mas ele precisa estar preparado para desconfiar. O médico só diagnostica aquilo que conhece”, sublinha.

Entre os tipos mais comuns de câncer de sangue estão os linfomas, as leucemias e o mieloma múltiplo. Este último afeta as células plasmáticas, mais comum entre a população idosa. Em se tratando de linfomas e leucemias, as classificações são muitas. Para o linfoma, por exemplo, existem os Hodgkin, agressivos e quase sempre curáveis, e os não-Hodgkin, como os diagnosticados em Gianecchini e na presidente Dilma Roussef, em 2009. Os não-Hodgkin, por sua vez, podem ser de células B (que correspondem a 80% dos casos), e de células T, cuja evolução é um pouco mais lenta, embora mais resistentes à quimioterapia. Já a leucemia pode ser linfóide ou mielóide, aguda ou crônica, subtipos que apresentam sintomas, evolução e tratamentos bastante diferentes.          

O grande problema de alguns desses tipos, no entanto, é que nem sempre leucemias e linfomas apresentam sintomas nos seus estágios inicias. O não-Hodgkin do tipo células T, por exemplo, só começa a dar sinais de sua chegada quando a doença já se encontra avançada. “Os pacientes, às vezes, contam histórias de meses. Uma íngua que apareceu há quatro meses, uma febre que começou no mês passado. Aí você vai examiná-lo e encontra três, quatro ínguas pelo corpo. Nesse ponto, embora o estado geral do paciente seja bom, a doença já pode estar longe do seu estágio inicial”, alerta o hematologista Jorge Vaz, do Hospital de Brasília. Outro caso clássico de doença assintomática é a leucemia crônica. “Algumas leucemias só aparecem em exames de rotina porque não apresentam sintoma algum. Há casos, inclusive, que você não precisa submeter o paciente logo de cara a um tratamento e ele consegue viver normalmente por uns 10 ou 12 anos sem nenhum tipo de sintoma.”           

Cada diagnóstico, uma sentença       
Como leucemias crônicas assintomáticas são a exceção à regra, há uma infinidade de outros tumores sanguíneos que há muito não só despertam a curiosidade médica como têm ajudado a oncologia a dar passos largos rumo a novos e menos agressivos tratamentos. A leucemia mieloide crônica (LMC), por exemplo, foi responsável por uma enorme revolução no tratamento oncológico quando, nos 1990, os médicos descobriram o cromossomo portador da mutação que desencadeava o seu aparecimento. A descoberta deu origem à substância conhecida hoje como imatinibe, usada não só no tratamento da LMC, mas muito eficiente também contra alguns tumores gastrointestinais. “O tecido sanguíneo é muito acessível. Para que você possa estudá-lo, basta colher uma amostra de 5ml de um paciente. Por isso, a medicina avança tanto no tratamento contra cânceres sanguíneos”, tranquiliza o oncologista Gustavo Fernandes, coordenador da Unidade de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês Brasília.
O mieloma, por exemplo, que até bem pouco tempo era motivo de preocupação, deixou o estigma de incurável para trás. A viabilização do transplante autólogo — o mesmo pelo qual passou Reynaldo Gianecchini — e o advento de drogas como a talidomida e a lenalidomida renovaram as expectativas dos portadores da doença. “Muita gente até torcia o nariz quando fazia um diagnóstico desses”, frisa Fernandes. “Mas hoje o tratamento dá resultados excelentes. É gostoso tratar a doença e ver essa evolução no paciente” continua.

De você para você mesmo        
O transplante autólogo, praticado no Brasil há uma década, revolucionou o tratamento do mielomas e de algumas leucemias e linfomas para os quais a única alternativa era a quimioterapia comum ou o transplante alogênico, com uma amostra de medula óssea altamente compatível ao material genético do doente. O procedimento autólogo é feito em três etapas: primeiro, colhe-se uma amostra de células-tronco do próprio paciente. Depois, o doente recebe quimioterapia de ataque, que destrói a medula cancerosa do paciente e dá lugar a uma nova. Por fim, são reimplantas as células retiradas e, em pouco tempo, a medula óssea está recomposta. “Ao contrário do método de transplante tradicional, o autólogo não oferece risco de rejeição e oferece apenas 5% de risco complicações graves, contra 30% nos transplantados alogênicos”, aponta o hematologista Jorge Vaz.    

Transplante de medula, ainda um problema      
Segundo cálculos da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale), uma fundação e apoio a doentes e familiares, cerca de 1,8 mil pacientes aguardam hoje na fila por um doador de medula compatível. Até outubro do ano passado, o Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome), contava com mais de 2,5 milhões de cadastros. “O problema é que, no Brasil, o tempo médio entre o cadastro do doador e a convocação é de dez anos. Mas, nesse período, os dados não são atualizados, o que significa que muitos nunca serão localizados”, lamenta a presidente da Abrale, Merula Steagall. “É um desperdício de investimento, já que cada doador cadastrado custa para o governo R$ 780”, continua.           
Mesmo que o transplante alogênico ainda seja a cura para muitos pacientes, as dificuldades vão muito além de encontrar um doador compatível — a cada 10 mil cadastrados, apenas um será convocado. “A maior probabilidade é entre irmãos. O sonho de qualquer médico que precise realizar um transplante alogênico de medula é encontrar aquelas famílias com 12, 13 filhos”, salienta Gustavo Fernandes, do Sírio-Libanês. Depois de realizado o transplante, a torcida é pela recuperação do paciente sem complicações. A mais comum é a chamada Doença do Enxerto Contra o Hospedeiro, ou Dech, quando a nova medula reconhece o receptor como um corpo estranho. “O transplante alogênico é possivelmente um dos procedimentos mais complexos da medicina, porque você substitui a fábrica de sangue do paciente”, resume Fernandes. “Quando você transplanta um rim, por exemplo, é o organismo que rejeita o órgão transplantado. Mas se você transplanta o sistema imunológico, é o sistema que vai rejeitar o organismo inteiro. A boa notícia é que as medidas de suporte vêm ganhando com a tecnologia e o procedimento está bem mais seguro do que era”, ameniza.     

Doação de medula óssea          

Idade: O doador deve ter entre 18 e 55 anos.  
Saúde em dia: Ao se voluntariar, o potencial doador passa por alguns exames de triagem para detectar HIV, sífilis, hepatite, doença de Chagas, HTLV, anemia, grupos sanguíneos e Fator Rh.       
Cadastro: No cadastro, feito em um hemocentro, são colhidos do doador apenas 10 ml de sangue. A amostra passa por um exame laboratorial (o HLA), que determina suas características genéticas.   
Arquivo: As informações ficam armazenadas em um cadastro nacional, o Redome.
Compatibilidade: Quando é encontrado um doador compatível, o voluntário é chamado para fazer outros exames de compatibilidade genética. Só depois o doador decide se vai mesmo prosseguir.  
Procedimento: Na doação, o voluntário recebe anestesia geral e a medula é aspirada do osso da bacia através de uma agulha. A quantidade de medula óssea retirada do doador é de apenas 10% do total e, com aproximadamente 15 dias do procedimento, ela já está recomposta.

Para doar em Brasília:       
Fundação Hemocentro de Brasília        
Hospital de Base    
Mais informações: (61) 3327-4413         

Os números do transplante         
- São encontrados doadores para apenas 25% dos pacientes.      
- Desses, cerca de 30% morrem de complicações decorrentes do procedimento.
- A cada 10 mil cadastros no Redome, apenas um é chamado.      

Atenção aos sintomas    
Quanto a isso, não há regra. A doença pode, inclusive, permanecer assintomática por um longo período. Porém, é preciso estar atento a alguns sinais:
Leucemias:
Febre
Infecções frequentes        
Cansaço
Anemia
Sangramentos na gengiva, no nariz ou fluxo menstrual anormal  
Palidez
Manchas vermelhas pelo corpo  
Hematomas frequentes    
Dor óssea    

Linfomas
Ínguas no pescoço, axilas, virilhas e atrás dos joelhos         
Infecções
Febre noturna ou no final da tarde        
Sudorese
Perda de peso        


Fonte: CORREIO BRASILIENSE – DF/ Consulfarma

Roacutan: Os benefícios e os riscos de utilizar este medicamento para acne

O impacto que a acne causa nas pessoas é algo realmente sério, podendo destruir a autoestima de um indivíduo.

O que exatamente é o Roacutan?

Trata-se de um medicamento usado em casos graves de acne. Seu princípio ativo, a isotretinoína, é um derivado da vitamina A. Sua ação é baseada principalmente na redução da oleosidade e produção de sebo, bem como controlar as bactérias que causam a acne.
Em alguns casos, o tratamento com o medicamento pode se estender por até 8 meses e deve ser obrigatoriamente prescrito por médicos dermatologistas. Trata-se de uma medicação extremamente eficaz, mas que pode provocar problemas sérios.

A acne severa pode levar seus portadores à depressão. Seria correto receitar um medicamento que pode piorar este problema psicológico?

A depressão no caso de pacientes que usam o medicamento é algo um pouco complicado, pois fica muito difícil separar o que seria depressão derivada de uma pele que destrói a autoestima de uma que possivelmente seja provocada pelo medicamento.
Nenhum estudo até o momento provou a causalidade entre o Roacutan e depressão, mas os médicos estimam que exista uma ligação. O Roacutan é semelhante à molécula da vitamina A, por tanto, não está claro o motivo pelo qual esta substância levaria à depressão. Caso um paciente inicie o tratamento com o medicamento e perceber qualquer alteração de humor, deve informar imediatamente seu médico e parar o tratamento ou continuar e obter acompanhamento psiquiátrico.

Por que o medicamento é prescrito se pode ser tão prejudicial?

O Roacutan é um medicamento muito eficaz, mas a prescrição fica a cargo de um ato de equilíbrio entre o médico e paciente. Os benefícios e os riscos têm de ser cuidadosamente ponderados: em algumas pessoas os efeitos psicológicos são mínimos ou inexistentes, já a melhoria na pele é algo muito significativo.

Outros tratamentos podem ser eficazes?

Existem outros tratamentos seguros e eficazes, mas mesmo assim pode levar meses até obter resultados satisfatórios, e é necessário rigor no tratamento para que os sinais de melhora apareçam.
Existem antibióticos orais, já para as meninas são recomendados alguns tipos de pílulas anticoncepcionais, amplamente utilizados para este fim. Outras substâncias – peróxido de benzoíla é uma delas – são de ação tópica e também podem oferecer resultados consideráveis em casos de acne de grau leve ou moderada.

Fonte: Osmairo Valverde da redação de Brasília - jornalciencia.com/

Cientistas vasculham venenos em busca de novos fármacos

As toxinas produzidas por animais venenosos contêm compostos que podem ser aproveitados no desenvolvimento de uma ampla gama de fármacos e inseticidas. Mas, para que isso seja possível, é preciso identificar compostos de interesse, desvendar suas estruturas moleculares, realizar a síntese das moléculas em laboratório e, por fim, realizar testes clínicos.
Durante quatro anos, um grupo de pesquisadores se dedicou à identificação e elucidação da estrutura molecular de cerca de 200 peptídeos e proteínas, além de 140 pequenas moléculas encontradas no veneno de diferentes grupos de aranhas, vespas e outros artrópodes venenosos do Brasil.
Realizado no âmbito do programa BIOTA-FAPESP, o Projeto Temático "Procura de compostos líderes para o desenvolvimento racional de novos fármacos e pesticidas a partir da bioprospecção da fauna de artrópodes brasileiros", financiado pela FAPESP, foi coordenado por Mario Sergio Palma, professor do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Rio Claro (SP).
De acordo com Palma, além de prospectar novas moléculas, os cientistas envolvidos com o projeto aprofundaram estudos dos mecanismos de ação das toxinas e ganharam experiência com novas técnicas de síntese de peptídeos e de pequenas moléculas.
“Além dos resultados de pesquisa extremamente positivos, o projeto possibilitou a montagem de uma unidade de síntese de peptídeos, produziu 10 teses de doutorado, 13 dissertações de mestrado e teve a participação de seis pós-doutorandos e 14 bolsistas de iniciação científica”.
Segundo Palma, que é químico de formação, o trabalho realizado pelo grupo, por ser essencialmente multidisciplinar, exigiu o constante estabelecimento de parcerias com pesquisadores de áreas como fisiologia e farmacologia. Embora envolvesse apenas dois grupos permanentes – da Unesp em Rio Claro e Rio Preto –, com quatro pesquisadores seniores, o grupo criou tentáculos em diversas áreas e instituições.
“Toda a infraestrutura gerada pelo Temático – que permitiu o aprimoramento de técnicas de análise de estrutura e espectrometria de massas – gerou a consolidação dos nossos laboratórios. Durante os quatro anos do projeto, pesquisadores de 63 instituições diferentes utilizaram nossas instalações, multiplicando as publicações relacionadas ao nosso trabalho”, afirmou.
O Projeto Temático teve dois focos principais: as macromoléculas de biopeptídeos e proteínas – que têm interesse para aplicações na indústria química e farmacêutica – e as pequenas moléculas. A equipe se dividiu entre os dois focos e trabalhou com artrópodes venenosos de diferentes grupos, incluindo aranhas, vespas, abelhas e formigas.
“Fomos procurar, fundamentalmente, drogas que têm ação neurotóxica. Quando se compreende a estrutura e a ação dessas substâncias, com uma pequena modificação é possível fazer com que elas tenham ação neuroprotetora”, explicou Palma.
No decorrer da evolução, a estrutura das toxinas evoluiu para se adaptar à estrutura das células dos animais que deveriam ser atacados, ou dos quais era preciso se defender. Assim, em geral, para compreender a ação da toxina, é preciso não apenas desvendar sua composição, mas entender todo o contexto no qual ela atua.
“Trabalhamos, por exemplo, com dois tipos de aranhas: as construtoras de teias aéreas e as errantes – que vivem no solo e caçam. A composição dos venenos de cada uma delas é muito diferente, já que são utilizados com finalidades e estratégias distintas”, disse Palma.

As toxinas das aranhas que vivem longe do chão têm poucas proteínas e peptídeos, mas são cheias de pequenas moléculas orgânicas muito parecidas com as toxinas das plantas. As aranhas do gênero Nephila, que fazem grandes teias amareladas e douradas, foram o primeiro alvo dos estudos.
“As gotículas viscosas na teia das Nephila servem para prender pequenos insetos e também para lubrificar e favorecer a flexibilidade da teia. São compostas de um conjunto de vesículas feitas de lipídios por fora e preenchidas com toxinas”, disse.
Os cientistas estudaram como esses lipídios reagem com o exoesqueleto dos insetos presos pelo visgo, removendo a cera que o protege e colocando-o em contato com as neurotoxinas, paralisando o animal.
“Essas substâncias são inseticidas poderosíssimos. Encontramos ali moléculas interessantes, que são alcaloides retirados pelas aranhas de suas presas, que por sua vez os sequestram dos alcaloides das plantas. Uma vez que a aranha obtém o alcaloide, ela introduz modificações em sua estrutura, produzindo as neurotoxinas”, explicou Palma.
Essas aranhas só consomem proteína fresca, por isso não matam as presas. É preciso injetar nos insetos um veneno paralisante, guardando-o para os momentos de fome. Além disso, a aranha produz toxinas diferentes de acordo com o período do ano, sempre de forma coerente com o tipo de presa disponível.
“Observamos que as toxinas usadas para provocar a paralisia produzem muitas estruturas químicas diferentes. Nesse grupo de aranhas, elucidamos a estrutura de 106 moléculas”, contou o coordenador do projeto.
Três das toxinas descobertas, que causam paralisia transitória, mostraram-se especialmente interessantes quando testadas no sistema nervoso de ratos e camundongos.
“Usamos modelos de epilepsia e descobrimos que essas três drogas têm efeitos antiepiléticos promissores. Um trabalho sobre isso foi publicado na revista Brain Research”, disse Palma.
O modelo se mostrou tão promissor que o grupo estabeleceu uma parceria com o professor Jaderson da Costa, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), para testá-lo em modelos in vitro de tecido de cérebros humanos com epilepsia refratária.        

Doenças neurodegenerativas
Os aspectos evolucionários convergentes entre plantas e aranhas também foram estudados nas chamadas aranhas coloniais, como a Parawixia bistriata, que fazem teias em plantas do gênero Banisteriopsis. Diferentemente das Nephila, que têm teias perenes, essas outras produzem as teias e as destroem diariamente.
“Encontramos um grande volume de alcaloides no veneno dessas aranhas e passamos a estudar o mecanismo de ação dessas moléculas, que provocam convulsões quando aplicadas em camundongos, ratos e coelhos. Descobrimos que o mecanismo envolve os canais de cálcio dos neurônios”, contou Palma.
Em doenças como Parkinson e Alzheimer, os neurônios degenerados têm um defeito morfológico que mantêm seus canais de cálcio abertos permanentemente, provocando uma metilação ininterrupta que causa tremores.
“O envenenamento produzido pela aranha tem um efeito muito parecido. Mapeamos o cérebro dos animais intoxicados e, com um marcador, localizamos a região onde a toxina se acumula. Verificamos que ela produz a morte do animal por excesso de íons cálcio”, afirmou Palma.
Entre o grupo das aranhas que vivem no solo, como as armadeiras, o grupo da Unesp isolou uma substância com estrutura química pouco comum na natureza. Trata-se de um composto não peptídico, não proteico, de baixa massa molecular e que aparentemente não tem toxicidade, mas atua sobre os canais iônicos.
“Testamos a substância no laboratório da PUC-RS, em ratos, e descobrimos que se trata de uma droga antiepilética ainda mais potente que a anterior. Estamos aguardando a autorização para realizar estudos em modelos humanos”, disse.
Os pesquisadores descobriram também, em vespas, uma neurotoxina capaz de paralisar e matar alguns insetos, ao agir no receptor de glutamato – uma classe de moléculas que recebem o principal neurotransmissor que estimula o cérebro.
“Há várias subfamílias e subtipos de vespas. Em um deles, descobrimos essa droga, que existe de forma modificada no sistema nervoso de mamíferos. Esse composto se mostrou um potente inibidor de crises epiléticas em modelos animais in vitro. Trabalhamos agora no processo de síntese dessa substância e estamos aguardando autorização para administrá-la em modelos animais in vivo”, disse Palma.
No veneno das vespas da espécie Polybia paulista, conhecidas como “paulistinhas”, o grupo de cientistas encontrou uma substância do grupo fenilmetilamina, semelhante a drogas utilizadas para controlar o apetite.
“A substância é um isômero estrutural de certas anfetaminas usadas para o controle do apetite e proibidas no Brasil. É parecida também com as drogas ilegais usadas em raves”, disse Palma.
No veneno de abelhas, os cientistas da Unesp descobriram grandes moléculas com notável reatividade a anticorpos da imunoglobulina. Segundo Palma, nunca se conseguiu produzir um soro para veneno de abelhas, pois o mecanismo de ação do veneno era desconhecido.
“Elucidamos a composição das proteínas do veneno e conseguimos entender todas as etapas do processo de envenenamento. A partir daí, fizemos uma parceria com a divisão de soros do Instituto Butantan e com o grupo de Imunologia do Instituto do Coração (Incor) e produzimos o soro. Temos agora a primeira patente de soro de veneno de abelha do mundo, que já foi outorgada. Estamos transferindo o know-how para a divisão de produção de soro do Butantan para planejar a produção em escala”, disse.
Na vertente do projeto voltada aos peptídeos, duas substâncias isoladas a partir de venenos de vespas tiveram destaque especial: peptídeos antibióticos e uma nova família de peptídeos muito pouco conhecida até agora, com ação potente em células pancreáticas. O trabalho foi feito em parceria com o professor Everardo Magalhães Carneiro, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), especialista em diabetes.
“Pode ser um modelo interessante para ajudar em certos casos de diabetes que são provocados pelo fato de a glândula produtora de insulina não conseguir secretar a substância. Talvez esses peptídeos sejam adjuvantes interessantes para auxiliar a liberação natural de insulina”, afirmou Palma. 

Por Fábio de Castro