segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Efeitos do Tamiflu continuam incertos


Dois anos após a gigante farmacêutica Roche prometer à revista científica British Medical Journal (BMJ) que liberaria dados dos testes com o Tamiflu para uma avaliação independente, a segurança e a eficácia desse medicamento anti-influenza continua incerto.
Um novo relatório, lançado pela Colaboração Cochrane, afirma que a recusa da Roche em fornecer acesso a todos os seus dados deixa sem solução questões críticas sobre a eficácia da droga.
Uma investigação feita pelo BMJ, publicado para coincidir com o relatório divulgado agora pela Cochrane, também levanta sérias preocupações sobre o acesso a dados sobre medicamentos, o uso dos chamados escritores-fantasma (ghost writers) nos testes de medicamentos, e sobre o processo de aprovação de medicamentos.
Enquanto isso, o Tamiflu se tornou o tratamento básico para a influenza. Ele também entrou para a lista de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial da Saúde, e as alegações da Roche [sobre a eficácia do Tamiflu] continuam sendo apoiadas por agências de saúde influentes.
Os pesquisadores da Cochrane queriam testar a alegação da Roche de que o Tamiflu previne complicações e reduz o número de pessoas que exigem tratamento hospitalar.
Mas a investigação foi tolhida pela recusa da Roche em fornecer todos os dados de seus estudos clínicos para análise.
A equipe obteve alguns relatórios de estudos clínicos da Agência Europeia de Medicamentos (EMA: European Medicines Agency), mas encontrou inconsistências com os relatórios publicados e uma possível sub-publicação de efeitos colaterais.
Quando questionada anteriormente pelo BMJ, a Roche também admitiu que alguns dos artigos publicados tinham usado escritores-fantasma.
A investigação do BMJ revelou como diferentes agentes regulamentadores abordam os dados que lhes são submetidos, levando a mensagens conflitantes sobre sua eficácia.
Por exemplo, a EMA liberou uma parte dos relatórios de estudos relativos aos testes clínicos do Tamiflu para a Cochrane, mas o órgão admite que não solicitou o restante dos dados ao fabricante, embora ela seja legalmente autorizada a fazer isto.
Na ocasião, a EMA afirmou ao BMJ que planeja começar a publicar relatórios para todas as drogas submetidas para aprovação nos próximos anos.
"Nós esperamos muito que a EMA de fato adote essa providência importante, tornando públicos os estudos completos. Mas nós continuamos muito longe de ter um histórico completo dos testes para todas as drogas em uso clínico. A segurança pública e o uso adequado do dinheiro público exigem que nós não admitamos nada menos do que isso," disse a Dra. Fiona Godlee, editora do BMJ.
Enquanto isso, a FDA (Food and Drug Administration) dos Estados Unidos, que provavelmente revisou o programa de testes do Tamiflu em mais detalhes do que nenhum outro fora da Roche, optou por não revisar o maior teste clínico do Tamiflu já feito quando analisou a droga com vistas à sua aprovação.
A agência norte-americana afirmou que o "Tamiflu parece não prevenir tais complicações [infecções bacterianas graves]."
Entretanto, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDCs) dos Estados Unidos continuam a citar testes publicados do Tamiflu, alegando uma redução no risco de complicações da influenza, mesmo depois que a Roche admitiu que alguns desses testes foram escritos por escritores-fantasmas [um escritor cujo trabalho é comprado].
"As discrepâncias entre as conclusões tiradas por diferentes órgãos de regulamentação ao redor do mundo salientam a situação absurda em que nos encontramos. Em um mundo globalizado, os reguladores devem cooperar e congregar seus recursos limitados. De outra forma, nós continuaremos a desperdiçar dinheiro e colocar em risco a saúde das pessoas usando drogas que não funcionam," diz a Dra Godlee.
A investigação também levantou questões sobre os efeitos clínicos do Tamiflu.
Depois de uma avaliação cuidadosa dos dados dos testes, o grupo Cochrane afirma que o Tamiflu parece afetar a produção de anticorpos - uma alegação que a Roche não aceita.
Isto é importante, afirmam os pesquisadores da Cochrane, porque a vacinação contra a influenza depende de uma resposta de anticorpos para ser efetiva.
Mas, quando questionada pela Cochrane, a Roche se recusou a explicar como a droga funciona.
Desta forma, o grupo da Cochrane afirma que, "até que se saiba mais sobre o modo de ação dos inibidores de neuramidase, os profissionais de saúde, os pacientes e outros tomadores de decisão precisam refletir sobre as descobertas desta revisão antes de tomar qualquer decisão sobre o uso dessa droga."
O grupo da Cochrane também argumenta que a capacidade do Tamiflu para evitar a disseminação da influenza não foi demonstrada nos testes.
Ainda assim, esta é uma das principais razões pelas quais os governos ao redor do mundo têm gasto bilhões de dólares fazendo estoques de Tamiflu para o caso de uma pandemia.
A Roche afirma que forneceu à equipe Cochrane informações suficientes para a realização de sua avaliação, mas a equipe Cochrane afirma que isto não ocorreu.
"No exemplar de Dezembro de 2009 do BMJ, a Roche prometeu relatórios completos para quaisquer pesquisadores legítimos. Eles não forneceram um único relatório à Cochrane, apesar de nossas repetidas solicitações," afirma o
Dr. Peter Doshi, da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins.

Por: Deborah Cohen – BM

Chás alucinógenos têm propriedades analgésicas e anticancerígenas

 Chás medicamentosos

Ao pesquisar chás alucinógenos, como o ayahuasca, empregados em rituais religiosos e por tribos indígenas da Amazônia, cientistas da Unicamp descobriram uma grande variedade de propriedades farmacológicas.
Entre os efeitos dos chás estão a atividade antiparasitária contra leishmania e a atividade citotóxica contra células de linhagens de câncer humano, além da atividade analgésica sobre o Sistema Nervoso Central (SNC).
Uma destas substâncias mostrou uma atividade analgésica comparável à da morfina, o que deve gerar um pedido de patente pela Unicamp e pelos pesquisadores Manoel Trindade Rodrigues Júnior e Ronaldo Aloise Pilli, responsáveis pelas descobertas.

Beta-carbolinas

A pesquisa demonstrou o grande potencial de um grupo de substâncias, conhecidas como beta-carbolínicas, como estruturas privilegiadas para o desenvolvimento de novos medicamentos.
O trabalho foi feito em duas linhas: a busca pela atividade farmacológica das beta-carbolinas e o esclarecimento sobre como esta atividade é produzida no corpo humano.
Algumas beta-carbolinas já são substâncias naturais reconhecidas por sua destacada atuação sobre o SNC como a reserpina, droga indicada para pessoas hipertensas.

Ensaios preliminares

Os ensaios realizados até aqui, comenta Manoel Trindade, apesar de significativos, são ainda preliminares e sugerem uma série de outros ensaios in vivo antes que a propriedade analgésica observada possa levar à produção de um novo medicamento.
Estes testes, esclarece Pilli, em geral demoram entre cinco e dez anos. Dependendo dos resultados, este período pode ser maior ou menor também em razão do interesse e da inovação para o estabelecimento de uma nova terapia.
Manoel Trindade desenvolveu várias metodologias de síntese dessas substâncias, em continuidade a trabalhos anteriores do grupo do qual ele faz parte, quando as bases metodológicas para a preparação dessa família de compostos foram estabelecidas.

Rotas de síntese

Na ocasião, foi esboçada uma rota de síntese para preparação de compostos naturais isolados de fontes marinhas.
"O nosso interesse era confirmar a estrutura química desses compostos, uma vez que eles tinham sido isolados em pequenas quantidades e a sua estrutura tridimensional ainda não havia sido perfeitamente estabelecida", explica Pilli. Esta mesma rota, revela ele, foi aproveitada nesta pesquisa.
Desenvolver essas rotas de síntese assimétrica eficientes permitiu a preparação de um conjunto de substâncias naturais, dentre as quais se incluem a tripargina, deplancheína, debromo arborescidina, harmicina, cantin-6-ona e 10-metoxi-cantin-6-ona e dois análogos da harmicina.

Efeitos analgésicos

Posteriormente, houve uma avaliação farmacológica que incluiu a avaliação da atividade citotóxica, leishmanicida e sobre o SNC que foram realizados em colaboração com o grupo do professor João Ernesto de Carvalho, do Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA) da Unicamp, e do professor Sergio Albuquerque, da Universidade de São Paulo, de Ribeirão Preto.
Somado aos efeitos analgésicos visivelmente pronunciados que foram encontrados para algumas das substâncias sintetizadas, também observou-se que uma das substâncias se destacava pelas suas atividades citotóxica e leishmanicida. Os ensaios biológicos deverão prosseguir, segundo o seu autor, com a ampliação do número de substâncias a serem preparadas e testadas em razão dos resultados já alcançados.

Remédios naturais

"Estima-se que aproximadamente 25% das novas substâncias farmacologicamente ativas descobertas nos últimos 25 anos são produtos naturais ou derivados de produtos naturais. Esse número sobe para mais de 50% se incluirmos produtos sintéticos que mimetizam produtos naturais ou cujo grupo farmacofórico é inspirado em produtos naturais", informa Pilli.
"Daí a importância de estudar os compostos naturais e desenvolver novas metodologias para alcançar a síntese destes compostos com bons rendimentos, amparando-se na síntese orgânica catalítica e assimétrica. Afinal, ao longo da evolução, esses metabólitos secundários foram selecionados de modo a interagir com alvos biológicos, garantindo vantagem adaptativa aos seus portadores. Trata-se portanto de estruturas pré-validadas do ponto de vista de atividade biológica."
O grupo da Unicamp vem acenando, há algum tempo, na direção de aproveitar substâncias que são encontradas na natureza e que possam se constituir plataformas para o desenvolvimento de substâncias com propriedades farmacológicas relevantes.
"A natureza tem sido a principal fonte de busca de um grande número de fármacos que foram e estão sendo desenvolvidos. A nossa contribuição está em aproveitar algumas destas substâncias, desenvolver um método de síntese em laboratório que eventualmente possa ser aproveitado em escala industrial e, ao mesmo tempo, prover a preparação de análogos de substâncias naturais", resume Pilli. "Isso muitas vezes colabora para melhorar a performance de uma determinada substância farmacologicamente ativa, já que a ideia é minimizar os efeitos indesejados simultaneamente à manutenção da atividade terapêutica desejada."
Manoel Trindade acredita que estudos futuros precisarão ser realizados com a síntese de outros análogos, a fim de se alcançar uma clara correlação entre estrutura química e atividade farmacológica, além de poder avançar no entendimento do modo de ação dessas substâncias no que se refere à atividade contra parasitos, contra células de câncer humano e atividade analgésica.

Chá Ayahuasca

Ayahuasca, nome quíchua de origem inca, refere-se a uma bebida sacramental produzida a partir da extração de duas plantas nativas da floresta amazônica: o cipó Banisteriopsis caapi (caapi ou douradinho), que serve como IMAO (classe de fármacos que inibem a ação da monoamina oxidase), e folhas do arbusto Psychotria viridis (chacrona), que contêm o princípio ativo dimetiltriptamina. É também conhecida por yagé, caapi, nixi honi xuma, hoasca, vegetal, Santo Daime, kahi, natema, pindé, dápa, mihi, vinho da alma, professor dos professores, pequena morte, entre outros.
O nome mais conhecido, ayahuasca, significa "liana (cipó) dos espíritos". A ingestão de yagé permite aos xamãs sonharem e se transportarem ao mundo espiritual ancestral. O chá é utilizado ainda pelos incas e também por pelo menos 72 tribos indígenas diferentes da Amazônia e em países como Peru, Equador, Colômbia e Bolívia.
O uso dessas plantas pelos mestiços em geral acontece dentro do contexto da etnomedicina e segue os princípios gerais do emprego tradicional dos nativos (uso xamanista) com modificações e acréscimos pertinentes aos diversos sistemas de crenças religiosas importados com a colonização.
A sua utilização se expandiu para outras partes do mundo, com o crescimento de movimentos religiosos como o Santo Daime, A Barquinha, Natureza Divina e a União do Vegetal. Muito do que se pratica e conhece sobre ayahuasca vem da observação e do conhecimento empírico acumulado pelos indígenas.

Por: Isabel Gardenal - Jornal da Unicamp

Novo medicamento para emagrecer reduz 11% do peso em um mês

Medicamento diminuiu gordura corporal e controla o apetite

Considerada epidemia mundial, a obesidade já afeta um bilhão e meio de pessoas no mundo.
Ainda em fase experimental, um novo remédio parece ser a grande promessa para banir o excesso de peso. Em estudos realizados por pesquisadores do Centro de Câncer MD Anderson, da Universidade do Texas, o medicamento Adipotide reduziu 11% do peso de macacos em apenas um mês.

O Adipotide ataca o suprimento de sangue das células de gordura, conhecidas como tecido adiposo branco, que tendem a se acumular sob a pele e em torno da barriga.

Medicamento age no corpo e não no cérebro.

De acordo com declarações dos pesquisadores para a revista científica Science Translational Medicine, após injeções diárias de Adipotide, os macacos com excesso de peso apresentaram redução de 39% da gordura corporal total, o que representou queda de 11% no peso corporal. Os especialistas também relataram, após 4 semanas, que o tamanho da barriga reduziu 27%.
A grande diferença do Adipotide para as outras drogas que promovem a perda de peso parece ser o fato de não agir diretamente no cérebro. Em forma de injeção, o medicamento tem ação no corpo e, por esse motivo, os pesquisadores acreditam que o novo remédio seja mais seguro do que aqueles comercializados até hoje.

Adipotide diminui resistência à insulina e controla o apetite           

Recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a venda de três inibidores de apetite no Brasil e ainda apertou o cerco em torno da prescrição da Sibutramina. O problema dos medicamentos vetados pelo órgão é que sua ação sobre o cérebro apresenta reações adversas graves.

Segundo Dirceu Barbano, diretor-presidente da Anvisa, “os efeitos colaterais dos inibidores de apetite suspensos pela Anvisa não matam, mas podem causar dependência, depressão, complicações cardíacas e quadros psiquiátricos graves”. O Adipotide apresentou efeitos nocivos sobre os rins, mas os pesquisadores acreditam que a redução das doses possa resolver o problema. Os especialistas verificaram que o novo remédio diminuiu a resistência dos animais à insulina, sugerindo uma relação positiva para o tratamento do diabetes tipo 2. De acordo com a endocrinologista Rosane Kupfer, membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Endocrinologia, “o diabetes tipo 2 está associado ao ganho de peso. Estima-se que 90% dos portadores da doença sejam obesos”. O Adipotide também controlou o apetite dos macacos pesquisados.

Fonte: gnt.globo.com

Anticoagulante via oral já pode ser usado para tratar derrame


Anticoagulante

O único  anticoagulante de uso oral que pode ser tomado com outras medicações, a rivaroxabana, já pode ser usado para prevenção de doenças vasculares.
A liberação foi feita pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Em estudos feitos com o medicamento, o risco de recorrência de trombose profunda caiu pela metade.
O medicamento poderá ser usado em intercorrências como acidentes vasculares cerebrais  (AVC, ou derrames), embolia sistêmica em pacientes com arritmia cardíaca, como a fibrilação atrial, e no tratamento de tromboembolismo venoso (TEV), conhecido como trombose.

Fibrilação atrial

O Brasil é o país com maior número de mortes por derrame cerebral no continente.
São quase 130 mil casos todos os anos, segundo dados da Ispor (Sociedade Internacional de Farmacoeconomia, na sigla em inglês).
A fibrilação atrial é um tipo de arritmia cardíaca que atinge cerca de 1,5 milhão de brasileiros e é uma das principais causas de derrame cerebral, responsável por 20% de todos os casos registrados no país.

Tromboembolismo

O tromboembolismo venoso (TEV), que atinge entre uma e duas pessoas por grupo de mil habitantes no Brasil, compreende os casos de trombose venosa profunda (TVP) e de embolia pulmonar (EP).
É caracterizado pela obstrução total ou parcial da veia por um coágulo, que impede o retorno do sangue ao coração da forma correta.

Fonte: Diário da Saúde

Confirmado novo vírus causador de câncer


Oncovírus


Cientistas norte-americanos confirmaram o citomegalovírus como uma causa dos tipos mais comuns de câncer das glândulas salivares.
O citomegalovírus (CMV) vem se juntar a um pequeno grupo dos chamados oncovírus - os vírus causadores de câncer.
Agora já são oito os oncovírus identificados. O mais conhecido deles é o HPV.
Felizmente, parece que os vírus não têm apenas o papel de bandido: descobertas recentes revelaram os vírus oncolíticos - vírus capazes de destruir o câncer.

Citomegalovírus

A classificação do citomegalovírus como oncovírus tem importantes implicações para a saúde humana.
Esse vírus, que tem alta prevalência entre os humanos, pode causar doenças severas, e mesmo fatais, em pacientes com sistema imunológico comprometido.
Ele também causa defeitos de nascimento se a mulher tiver o primeiro contato com o citomegalovírus quando está grávida.
Michael Melnick, pesquisador da Universidade da Califórnia, afirma que a descoberta de seu grupo não descarta a possibilidade de que o CMV tenha papel em outros cânceres, além daquele das glândulas salivares.

Contra-ataque

"Nos pacientes saudáveis, como sistemas imunológicos normais, o citomegalovírus fica dormente e inativo nas glândulas salivares. Ninguém sabe o que o reativa," explica o pesquisador.
O estudo demonstrou que, quando há um tumor nas glândulas salivares, o vírus está ativo e há uma maior concentração de proteínas associadas a ele.
Mais do que isso, a quantidade de proteínas criadas pelo vírus tem uma correlação positiva com a gravidade do câncer.
Isto foi importante porque, conhecendo as proteínas que o vírus usa para intensificar o câncer, há agora um caminho a seguir em busca de contra-atacá-lo.

Por: Diário da Saúde

Como a alimentação regula a energia do cérebro?



A ingestão de uma dieta equilibrada é essencial para manter um peso corporal saudável, assim como o balanço energético, mas os pormenores sobre como os nutrientes que consumimos são detectados e processados no cérebro são ainda imperceptíveis.

Agora, um estudo traz novas informações sobre como os nutrientes da dieta influenciam as células do cérebro que são reguladores-chave do equilíbrio energético do corpo. O estudo publicado na revista “Neuron” sugere um mecanismo celular que poderá permitir às células do cérebro traduzir diferentes dietas em diferentes padrões de atividade.

"A composição nutricional das refeições, tais como os hidratos de carbono (açúcar) tem sido reconhecida por afetar os níveis de excitação e atenção", explicou o líder da investigação, Denis Burdakov, da Universidade de Cambridge.

"No entanto, quando certos neurônios especializados conhecidos por detectarem nutrientes individuais, como o açúcar, ficamos sem saber como as típicas combinações alimentares de nutrientes afetam os circuitos cerebrais de regulação do balanço energético."

A chave é uma substância conhecida como orexina ou hipocretina, produzida por alguns neurônios. Essa substância é um dos principais reguladores que mantêm o corpo desperto, e que também têm uma importante atuação no equilíbrio de energia.

Surpreendentemente, o estudo revelou que as misturas fisiologicamente relevantes de aminoácidos, os nutrientes derivados das proteínas (como clara de ovo), estimulavam e ativavam os neurônios produtores de orexina / hipocretina. Os cientistas mostraram que quando os neurônios produtores de orexina / hipocretina eram simultaneamente expostos a aminoácidos e açúcares, os aminoácidos serviam para suprimir a influência inibitória da glicose. “Nós descobrimos que a atividade no sistema orexina / hipocretina é regulada pelo equilíbrio de macronutrientes, em vez de simplesmente pelo valor calórico da dieta, sugerindo que o cérebro contém não só células que detectam a energia, mas também células que podem medir o equilíbrio da dieta", conclui Dr Burdakov.

“Os nossos dados apoiam a ideia de que os neurônios produtores orexina/hipocretina estão sob controle dos açúcares e das proteínas. Curiosamente, embora os efeitos comportamentais estejam além da análise do nosso estudo, esse modelo celular é consistente com relatórios que dizem que as refeições ricas em proteínas são mais eficazes que as dietas ricas em açúcar para estimular as pessoas”, explicou um dos autores do estudo, Denis Burdakov, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

Estudo publicado na revista “Neuron”

As Doenças que mais venderão em 2012


   Como a indústria farmacêutica conseguiu que um terço da população dos Estados Unidos tome antidepressivos, estatinas, e estimulantes? Vendendo doenças como depressão, colesterol alto e refluxo gastrointestinal. Marketing impulsionado pela oferta, também conhecido como “existe um medicamento – precisa-se de uma doença e de pacientes”.            

Não apenas povoa a sociedade de hipocondríacos viciados em remédios, mas desvia os laboratórios do que deveria ser seu pepel essencial: desenvolver remédios reais para problemas médicos reais.

Claro que nem todas as doenças são boas para tanto. Para que uma enfermidade torne-se campeã de vendas, ela deve: (1) existir de verdade, mas ser constatada num diagnóstico que tem margem de manobra, não dependendo de um exame preciso; (2) ser potencialmente séria, com “sintomas silenciosos” que “só pioram” se a doença não for tratada; (3) ser “pouco reconhecida”, “pouco relatada” e com “barreiras” ao tratamento; (4) explicar problemas de saúde que o paciente teve anteriormente; (5) precisar de uma nova droga cara que não possui equivalente genérico.

Aqui estão algumas potenciais doenças da moda, que a indústria farmacêutica gostaria que você desenvolvesse em 2012:

Déficit de atenção com hiperatividade em adultos

Problemas cotidianos rotulados como “depressão” impulsionaram os laboratórios nas últimas duas décadas. Você não estava triste, bravo, com medo, confuso, de luto ou até mesmo sentindo-se explorado. Você estava deprimido, e existe uma pílula para isso. Mas a depressão chegou a um ápice, como a dieta Atkins e Macarena. Com sorte, existe o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (DDAH) em adultos. Ele dobrou em mulheres de 45 a 65 anos e triplicou em homens e mulheres com 20 a 44 anos, de acordo com o Wall Street Journal.

Assim como a depressão, a DDAH em adultos é uma categoria que pode englobar tudo. “É DDAH ou menopausa?” pergunta um artigo na Additude, uma revista voltada exclusivamente à doença DDAH. “DDA e Alzheimer: essas doenças estão relacionadas?” pergunta outro artigo da mesma revista.

“Estou deprimida, pode ser DDAH?” diz um anúncio na Psychiatric News, mostrando uma mulher bonita, mas triste. Na mesma publicação, outro anúncio diz “promessas quebradas – adultos com DDAH têm quase duas vezes mais chances de se divorciar”, enquanto estimula médicos a checar a presença de DDAH pacientes para DDAH em seus pacientes.

Adultos com DDAH são normalmente “menos responsáveis, confiáveis, engenhosos, focados, autoconfiantes, e eles encontram dificuldades para definir, estabelecer e propor objetivos pessoais significativos”, diz um artigo escrito pelo dr. Joseph Biederman, psiquiatra infantil de Harvard, que leva os créditos por colocar “disfunção bipolar pediátrica” no mapa. Eles “mostram tendências de ser mais fechados, intolerantes, críticos, inúteis, e oportunistas” e “tendem a não considerar direitos e sentimentos de outras pessoas”, diz o artigo, numa frase que poderia ser usada por muitas pessoas para definir seus cunhados.

Adultos com DDAH terão dificuldade em se manter em um emprego e pioram se não forem tratados, diz WebMD, apontando para o seguindo requisito para as doenças campeãs de venda – sintomas que se agravam sem medicação. “Adultos com DDAH podem ter dificuldade em seguir orientações, lembrar informações, concentrar-se, organizar tarefas ou completar o trabalho no prazo”, de acordo com o site, cujo parceiro original era Eli Lilly.

Como as empresas farmacêuticas conseguiram fazer com que cinco milhões de crianças, e agora talvez seus pais, tomem remédios para DDAH? Anúncios em telas de 9 metros por 7, quatro vezes por hora na Times Square não vão fazer mal. Perguntam: “Não consegue manter o foco? Não consegue ficar parado? Seu filho pode ter DDAH?” (Aposto que ninguém teve problemas em se focar neles!).

Porém, convencer adultos que eles não estão dormindo pouco, nem entediados, mas têm DDAH é apenas metade da batalha. As transnacionais farmacêuticas também têm que convencer crianças que cresceram com o diagnóstico de DDAH a não pararem de tomar a medicação, diz Mike Cola, da Shire (empresa que produz os medicamentos para DDAH: Intuniv, Addreall XR, Vyvanse e Daytrana). “Nós sabemos que perdemos um número significativo de pacientes com mais ou menos vinte anos, pois saem do sistema por não irem mais ao pediatra”.

Um anúncio da Shire na Northwestern University diz “eu lembro de ser uma criança com DDAH. Na verdade, eu ainda tenho”, a frase está escrita em uma foto de Adam Levine, vocalista do Maroon 5. “É sua DDAH. Curta”, era a mensagem subliminar. (O objetivo seria: “continue doente”?).

Claro, pilhar crianças (ou qualquer um, na verdade) não é muito difícil. Por que outra razão traficantes de metanfetamina dizem que “a primeira dose é grátis”? Mas a indústria está tão empenhada em manter o mercado pediátrico de DDAH que criou cursos para médicos. Alguns exemplos: “Identificando, diagnosticando e controlando DDAH em estudantes”. Ou “DDAH na faculdade: procurar e receber cuidado durante a transição da infância para a idade adulta”.

Para assegurar-se de que ninguém pense que a DDAH é uma doença inventada, WebMD mostra ressonâncias magnéticas coloridas de cérebros de pessoas normais e de pacientes com DDAH (ao lado de um anúncio de Vyvanse). Mas é duvidoso se as duas imagens são realmente diferentes, diz o psiquiatra Dr. Phillip Sinaikin, autor de Psychiatryland. E mesmo que forem, isso não prova nada.

“O ponto central do problema é que simplesmente não existe um entendimento definitivo de como a atividade neural está relacionada à consciência subjetiva, a antiga relação não muito clara entre corpo e mente”, Sinaikin contou ao AlterNet. “Não avançamos muito além da frenologia, e esse artigo do WebMD é simplesmente o pior tipo de manipulação da indústria farmacêutica a fim de vender seus produtos extremamente caros. Nesse caso, um esforço desesperado da Shire para manter uma parte do mercado quando o Addreall tiver versão genérica”.

Artrite Reumatóide

A Artrite Reumatoide (AR) é uma doença séria e perigosa. Mas os supressores do sistema imunológico que a indústria farmacêutica oferece como alternativa – Remicade, Enbrel, Humira e outros – também são. Enquanto a AR ataca os tecidos do corpo, levando à inflamação das articulações, tecidos adjacentes e órgãos, os supressores imunológicos podem abrir uma brecha para câncer, infecções letais e tuberculose.

Em 2008, a agência norte-americana para alimentação e medicamentos (FDA) anunciou que 45 pessoas que tomavam Humira, Enbrel, Humicade e Cimzia morreram por doenças causadas por fungos, e investigou a relação do Humira com linfoma, leucemia e melanoma em crianças. Esse ano, a FDA avisou que as drogas podedm causar “um raro tipo de câncer nas células sanguíneas brancas” em jovens, e o Journal of the American Medical Association (JAMA) advertiu o aparecimento de “infecções potencialmente fatais por legionela e listeria”.

Medicamentos que suprem o sistema imunológico também são perigosos para os bolsos. Uma injeção de Remicade pode custar US$ 2.500; o suprimento de um mês de Enbrel custa US$ 1.500; o custo anual do Humira é de US$ 20 mil.

Há alguns anos, a AR era diagnosticada com base na presença do “fator reumatóide” e inflamações. Mas, graças ao marketing guiado pela oferta da indústria farmacêutica, bastam hoje, para o diagnóstico, enrijecimento e dor. (Atletas e pessoas que nasceram entes de 1970, entrem na fila, por favor).

Além do espaço de manobra para o diagnóstico e um bom nome, a AR possui outros requisitos das doenças campeãs de vendas. “Só vai piorar” se não for tratada, diz WebMD, e é frequentemente “subdiagnosticada” e pouco relatada, diz Heather Mason, da Abbott, porque “as pessoas costumam não saber o que têm, por algum tempo”.

Uma doença tão perigosa que o tratamento custa US$20 mil por ano, mas que é tão súbita que você pode não saber que tem? AR desponta como uma doença da moda.

Fibromialgia

Outra doença pouco relatada é a fibromialgia, caracterizada dores generalizadas e inexplicadas no corpo. Fibromialgia é “quase a definição de uma necessidade médica não atendida”, diz Ian Read, da Pfizer, que fabrica a primeira droga aprovada para fibromialgia, o medicamento anticonvulsivo Lyrica. A Pfizer doou US$ 2,1 milhões a grupos sem fins lucrativos em 2008 para “educar” médicos sobre a fibromialgia e financiou anúncios de serviço da indústria farmacêutica que descreviam os sintomas e citavam a droga. Hoje, a Lyrica lucra US$ 3 bilhões por ano.

Mesmo assim, a Lyrica concorre com Cymbalta, o primeiro antidepressivo aprovado para fibromialgia. A Eli Lilly propôs o uso de Cymbalta para a “dor” física da depressão, em uma campanha chamada “depressão machuca” antes da aprovação do tratamento para fibromialgia. O tratamento de pacientes com fibromialgia com Lyrica ou Cymbalta custa cerca de US$10 mil, segundo diários médicos.

A indústria farmacêutica e Wall Street podem estar felizes com os medicamentos para fibromialgia, mas os pacientes não. No site de avaliação de medicamentos, askapatient.com, pacientes que usam Cymbalta relatam calafrios, problemas maxilares, “pings” elétricos em seus cérebros, e problemas nos olhos. Nesse ano, quatro pacientes relataram a vontade de se matar, um efeito colateral frequente do Cymbalta. Usuários de Lyrica relatam no askapatient perda de memória, confusão, ganho extremo de peso, queda de cabelo, capacidade de dirigir automóveis comprometida, desorientação, espasmos e outros ainda piores. Alguns pacientes tomam os dois medicamentos.

Disfunções do sono: Insônia no meio da noite

Disfunções do sono são uma mina de ouro para os laboratórios porque todo mundo dorme – ou assiste TV, quando não consegue. Para agitar o mercado de insônia, as corporações criaram subcategorias de insônia, como crônica, aguda, transitória, inicial, de início tardio, causada pela menopausa, e a grande categoria de sono não reparador.          

Nesse outono [primavera no hemisfério Sul], as apareceu uma nova versão do Ambien para insônia “no meio da noite”, chamado Intermezzo – ainda que Ambien seja, paradoxalmente, indutor de momentos conscientes durante o sono. As pessoas “acordam” em um blackout do Ambien e andam, falam, dirigem, fazem ligações e comem.

Muitos ficaram sabendo desse efeito do Ambien quando Patrick Kennedy, ex-parlamentar de Rhode Island, dirigiu até Capitol Hill para “votar” às 2h45min da manhã em 2006, sob efeito do remédio, e bateu seu Mustang. Mas foi comer sob o efeito do Ambien que trouxe a pior discussão sobre o medicamento. Pessoas em forma acordavam no meio de montanhas de embalagens de pizza, salgadinhos e sorvete – cujo conteúdo tinha sido comido pelos seus “gêmeos maus”, criados pelo remédio.

Sonolência excessiva e transtorno do sono por turno de trabalho

Não é preciso dizer: pessoas com insônia não estarão com os olhos brilhando e coradas no dia seguinte – tanto faz se elas não tiverem dormido, ou se tiverem, em seu corpo, resíduos de medicamentos para dormir. Na verdade, essas pessoas estão sofrendo da pouco reconhecida e pouco relatada epidemia da Sonolência Excessiva durante o Dia. As principais causas da SED são apnéia do sono e narcolepsia.           

Mas no ano passado, as corporações farmacêuticas sugeriram uma causa relacionada ao estilo de vida: “transtorno do sono por turno de trabalho”. Anúncios de Provigil, um estimulante que trata SED, junto com Nuvigil, mostram um juiz vestindo um roupão preto, no trabalho, com a frase “lutando para combater o nevoeiro?”.

Obviamente, agentes estimulantes contribuem com a insônia, que contribui com problemas de sonolência durante o dia, em um tipo de ciclo farmacêutico perpétuo. De fato, o hábito de tomar medicamentos para insônia e para ficar alerta é tão comum que ameaça a criação de um novo significado para “AA” – Adderal e Ambien.

Insônia que é depressão

Disfunções do sono também deram nova vida aos antidepressivos. Médicos agora prescrevem mais antidepressivos para insônia que medicamentos para insônia, de acordo com a CNN. É também comum que eles combinem os dois, já que “insônia e depressão frequentemente ocorrem conjuntamente, mas não fica claro qual é a causa e qual é o sintoma”.

WebMD concorda com o uso das duas drogas. “Pacientes deprimidos com insônia que são tratados com antidepressivos e remédios para dormir se saem melhor que aqueles tratados apenas com antidepressivos”, escreve.

De fato, muitas das novas doenças de massa, desde DDAH em adultos e AR até fibromialgia são tratadas com medicamentos novos junto com outros que já existiam e que não estão funcionando. É uma invenção das corporações polifarmácia. Isso lembra do dono de loja que diz “eu sei que 50% da minha propaganda é desperdiçada – só não sei qual 50%”.

Martha Rosenberg escreve sobre o impacto das indústrias farmacêuticas, alimentícias e de armamentos na saúde pública.   
Tradução: Daniela Frabasile    
Fonte: Mercado Ético

domingo, 22 de janeiro de 2012

As armadilhas dos analgésicos


Especialistas registram o aumento do consumo de remédios contra a dor e alertam para os graves efeitos colaterais que isso pode causar, inclusive dependência
Um levantamento realizado pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), órgão do governo americano, divulgado recentemente acendeu um alerta vermelho para médicos e pacientes de todo o mundo. A pesquisa revela que, nos Estados Unidos, o número de mortes por overdose de analgésicos triplicou de 1990 a 2008. No último ano coberto pelo estudo, foram registrados 14,8 mil óbitos. A informação agrava a preocupação das autoridades mundiais de saúde em relação ao crescimento do consumo dessa classe de medicamentos, indicada para o alívio da dor. De acordo com a consultoria internacional IMS Health, de 2006 a 2010 o mercado global desses remédios teve crescimento de 27%. No Brasil, o segmento movimentou US$ 902 milhões em 2010, magnitude que torna o País líder de consumo entre as nações emergentes e sexto maior mercado do mundo, à frente de países como Japão e Espanha.    
Para se compreender as origens e as consequências desse problema, é necessário enxergar dois aspectos. Primeiro, deve-se entender as diferenças entre os tipos de analgésicos. Basicamente, há os comuns, aqueles comprados em farmácia e sem receita médica; os anti-inflamatórios com efeito analgésico, também geralmente comercializados sem dificuldade; e os narcóticos, que usam em sua formulação substâncias derivadas do ópio e necessitam de prescrição. São estes os responsáveis pelas mortes por overdose registradas no relatório americano.      

Depois, não se pode analisar esse fenômeno sem respeitar as particularidades de cada país, principalmente quando se buscam respostas para explicar o aumento do consumo. Tome-se a situação dos Estados Unidos, por exemplo. Por lá, a prevalência é de consumo abusivo de opioides. No Brasil, o consumo é maior de analgésicos comuns ou anti-inflamatórios com efeito analgésico. “E precisamos usar mais opioides, porque eles aliviam a dor oncológica e outras dores agudas”, diz o neurologista João Batista Garcia, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos da Dor. “O fato de não usarmos tanto esse tipo de remédio resulta no sofrimento de muitos pacientes.” Em comum a qualquer nação está a realidade de que, em geral, os indivíduos apresentam baixa tolerância à dor, preferindo recorrer às medicações.

O fato é que o abuso no consumo dos remédios – opioides ou comuns – tornou-se um dos maiores desafios da medicina atual. Na medida certa, eles aliviam a dor. Mas, em excesso, podem ser extremamente ameaçadores à saúde. Por aqui, uma das categorias mais usadas incorretamente é a de medicamentos contra dor de cabeça, normalmente vendidos sem receita médica. E o que a maioria dos pacientes desconhece é que, quando há consumo sem orientação adequada, corre-se o risco de desenvolver a chamada cefaleia de rebote, causada justamente pela ingestão acima do recomendado. Um trabalho feito pelo neurologista Ariovaldo Alberto Júnior, diretor da Sociedade Brasileira de Cefaleia, ilustra bem esse problema. Em um estudo na cidade mineira de Capela Nova, o médico descobriu que 3,6% da população, de apenas dois mil habitantes, tinha dor de cabeça diariamente. “A principal causa era o uso abusivo de analgésicos”, disse.       

A partir da constatação, foi implantado na cidade um programa de desintoxicação que já dura oito meses e inclui iniciativas de educação para os médicos – o objetivo é que parem de indicar analgésicos indiscriminadamente. O programa é semelhante a outro, aplicado também pela equipe do neurologista mineiro, no Tribunal de Contas de Minas Gerais. De mil funcionários, 43% tinham dor de cabeça todos os dias. Os empregados foram acompanhados por quatro meses e verificou-se a redução de mais de 50% da ocorrência da dor e da utilização de remédios. O trabalho foi apresentado no congresso deste ano da Academia Americana de Cefaleia.

A lista de prejuízos provocados pela utilização excessiva de remédios contra dor de cabeça é mais ampla. “O abuso pode causar lesão renal ou sangramento gastrointestinal”, afirma a neurologista Norma Fleming, coordenadora do Ambulatório da Clínica da Dor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. De maneira geral, esses danos são os mesmos causados por todos os outros tipos de analgésicos consumidos incorretamente. Há outros efeitos colaterais, porém que precisam ser lembrados. “O exagero na ingestão pode ocasionar sérias complicações hepáticas e aumentam os riscos de surdez especialmente após os 60 anos, além de interferir na formação das células do sangue”, explica o pediatra e toxicologista Anthony Wong. Ele é um dos maiores especialistas mundiais no assunto e diretor do Centro de Assistência Toxicológica (Ceatox) do Hospital das Clínicas de São Paulo.       

Essas eram até agora as armadilhas mais conhecidas. No entanto, outras, igualmente graves, estão sendo identificadas por pesquisas mais recentes. Na semana passada, cientistas da Universidade de Edimburgo, na Escócia, analisaram 663 pacientes encaminhados à Unidade Escocesa de Transplante de Fígado por causa de problemas no órgão induzidos pelo uso do paracetamol, um dos analgésicos mais usados. Essas pessoas foram observadas por seis anos. Nesse período, os pesquisadores descobriram que os 161 pacientes que abusaram continuamente desses remédios, excedendo frequentemente a dose limite, tiveram efeitos colaterais piores do que aqueles que tomaram uma grande quantidade de comprimidos de uma única vez. Esse tipo de overdose escalonada, como definiram os pesquisadores, aumentou a gravidade das lesões e os riscos dessas pessoas de morrer. “Eles não tomaram overdoses grandes e únicas, aquelas que ocorrem em um único momento. Mas no decorrer do tempo o dano se acumula e o efeito pode ser fatal”, disse Kenneth Simpson. O trabalho foi publicado na revista científica “British Journal of Clinical Pharmacology”.

Na Dinamarca, uma pesquisa traçou uma relação entre o uso de analgésicos comuns e alguns tipos de arritmia cardíaca. A pesquisa avaliou mais de 30 mil pacientes e concluiu que esses medicamentos podem levar a dois tipos de descompassos nas batidas do coração: a fibrilação atrial e o flutter atrial. Ambos aumentam o risco de paradas cardíacas, derrames e óbito. O trabalho analisou o impacto de dois tipos muito usados contra a dor, os anti-inflamatórios com efeito analgésico não esteroides e os de nova geração, conhecidos como inibidores seletivos COX-2.       

Alguns estudos estão jogando luz particularmente sobre os riscos do consumo exagerado na gravidez e infância. Um deles, feito nos Estados Unidos, avaliou o impacto do uso de opioides nesse período. Segundo o CDC americano, o uso de substâncias como a codeína, a oxicodona ou a hidrocodona, antes ou no início da gestação, está relacionado, em alguns casos, a defeitos como espinha bífida, hidrocefalia e glaucoma congênito. Os cientistas também acreditam que os remédios elevam aproximadamente duas vezes os riscos de o bebê ter a síndrome de hipoplasia do coração esquerdo (um dos defeitos cardíacos mais críticos). A última pesquisa, divulgada na semana passada, mostrou que um dos riscos da dose errada dos opioides é a desidratação infantil. “Esses remédios são sedativos e, por isso, muitas crianças não comem ou bebem tanto quanto de costume. Elas não acordam ou não conseguem ingerir a quantidade necessária sob efeito das medicações”, disse William Basco, diretor da divisão de Pediatria Geral da Universidade Médica da Carolina do Sul (EUA) e autor do trabalho. Esses remédios também tornam a respiração mais lenta. Em alta quantidade, isso pode levar à parada respiratória e até matar.

Uma das circunstâncias mais delicadas ao se investigar o problema é estabelecer quando há exagero no consumo e se pode determinar que uma pessoa tornou-se dependente. As situações de abuso, para os especialistas, ficam caracterizadas quando a pessoa começa a tomar o medicamento além da dose indicada. Ela acredita, por exemplo, que uma aspirina só não vai fazer efeito e toma duas. Ou ingere um comprimido e não espera o tempo necessário para que os efeitos se apresentem e já quer tomar outro. Mais um sinal importante é tomar o analgésico preventivamente, sem ter sintoma algum.

A dependência é mais grave e mais comum em relação a medicamentos da categoria dos anti-inflamatórios e derivados de opioides. “Para configurar o quadro de dependência, observamos sinais físicos e psicológicos”, diz a médica Rioko Sakata, coordenadora do Instituto da Dor da Universidade Federal de São Paulo. Nessa situação, a pessoa sente falta do remédio, mesmo sem ter os sintomas de qualquer doença, e não consegue deixar de tomá-lo, ainda que queira evitar. Pode haver também um aumento da tolerância: a pessoa necessita tomar cada vez mais comprimidos para ter o mesmo efeito. Na ausência do remédio, o indivíduo pode apresentar sintomas de síndrome de abstinência, como boca seca, irritação e taquicardia.

Entre os mais sujeitos à dependência dos analgésicos opioides estão portadores de fibromialgia (doença caracterizada por dor generalizada no corpo) e de dor de coluna. Também estão sob essa ameaça os profissionais de saúde. “São médicos, especialmente anestesistas, cirurgiões, emergencistas e profissionais de farmácia e de enfermagem”, diz o psiquiatra Marcelo Niel, do Programa de Assistência a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo Proad/Unifesp.          

Os caminhos que levam à dependência são iguais aos que empurram à dependência de drogas ilícitas. A exemplo da cocaína e da maconha, os opioides atuam na liberação de substâncias associadas aos mecanismos de recompensa. “Quanto mais prazer a droga estimula e libera, maior o risco de se sentir dependente porque a pessoa fica com um registro dessa sensação no cérebro”, explica Niel. “E é uma sensação tão boa que o cérebro quer repeti-la a todo momento.” No cérebro das pessoas que efetivamente se tornam dependentes, essa onda de alívio da dor ou prazer oferecida pelos medicamentos é interpretada como um convite irrecusável.

























































PERIGO
A médica Norma Fleming alerta para o risco de lesões renais
Com ajuda especializada, porém, é possível deixar de ser dependente. Há pelo Brasil alguns centros especializados na ajuda a pacientes. É uma batalha difícil, mas que pode ser vencida. A estratégia começa por uma fase de desmame. Ou seja, diminuir o consumo gradativamente. No caso dos analgésicos comuns, há duas formas de se fazer isso. Uma delas é tratar o paciente em casa. A medicação abusiva é retirada e são indicados outros medicamentos para controlar o problema de saúde que deu origem ao uso do remédio, como uma dor nas costas. Os especialistas também ensinam a usar os recursos farmacológicos para prevenir crises, o que é feito sob monitoramento. Mas há também situações em que o paciente sente enorme dificuldade de evitar os analgésicos ou tem sintomas muito intensos. “Essas pessoas poderão ser internadas por um período que vai de dez a 15 dias”, explica o neurologista Antonio Cezar Galvão, do Centro de Dor do Hospital Nove de Julho, em São Paulo. O processo todo demora, em média, de dois a três meses.      

Quando a dependência é de opioides, o processo de desmame é um pouco mais complicado porque há risco de síndrome de abstinência. “Não podemos interromper subitamente o uso de opioides”, explica o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, coordenador do Proad. “Se isso for feito, a pessoa pode correr risco de vida. Alguns pacientes apresentam taquicardia e queda da pressão, por exemplo.” A droga mais usada para ajudar no desmame é a metadona. “Em 15 dias é feito o desmame de opioides mais fracos, como a codeína. Depois dessa fase, o paciente faz psicoterapia de apoio para não voltar a consumir o remédio”, completa o psiquiatra. Com derivados de ópio mais fortes, como a dolantina, o tratamento pode demorar mais.         

Terapias complementares também ajudam. Entre elas, a acupuntura e a quiropraxia. Esta consiste em um conjunto de técnicas manuais – com ênfase na manipulação das articulações – usado para auxiliar no tratamento de desordens neuro-músculo-esqueléticas. “A técnica ajuda a devolver a mobilidade sem dor”, diz o quiropraxista carioca Lucas Rech.  

O melhor remédio para prevenir o abuso, no entanto, é a informação para conscientizar as pessoas dos riscos, disse Priya Bahri, da Agência Europeia de Medicamentos (Emea). Em uma conferência recente realizada na Índia, ela mostrou que mais da metade dos meninos e meninas americanos e europeus usam analgésicos todo mês para tratar dores de cabeça. “É na adolescência que se formam os hábitos de saúde. Por isso, é necessário levar informações aos jovens para que aprendam a se proteger”, diz Bahri.
 Por: Francisco Alves Filho e Monica Tarantino em Istoé